Ainda na sequência do caso do Conguito, reportagem do Expresso (tribuna.expresso.pt) de hoje, a qual retrata o lado humano do drama vivido pelos jogadores do Villa Athletic Club e a completa falta de ombridade, por parte dos principais dirigentes, ao lidarem com a situação.
"E o Villa Athletic Club? O fundador “nunca mais disse nada e escondeu-se”, os jogadores lidaram com “peso emocional de terem escolhido mal”
E depois do Villa Athletic Club, fundado pelo radialista conhecido por Conguito, que não pagou salários nem fez o que prometeu aos jogadores? A Tribuna Expresso falou com dois futebolistas que estavam no plantel do clube que, o ano passado, terminou pouco tempo depois de começar. Pedro Lagoa mudou de área e deixou o futebol em suspenso, Francisco Pardana mudou de equipa depois de um período mais difícil
RITA MEIRELES 13.02.2023 ÀS 11H11
“Era um projeto que nos parecia, a todos nós jogadores, que tinha pernas para andar. Supostamente tinha uma base sustentada, porque era muito à base de patrocínios que supostamente seria o presidente, o Conguito, que arranjava”, conta Francisco Pardana à Tribuna Expresso.
Fábio Lopes, mais conhecido por Conguito, começou a sua carreira no digital. Os vídeos no YouTube foram a base de um percurso que, mais tarde, passou pela rádio e televisão, mas nem por isso as redes sociais deixaram de fazer parte do seu dia-a-dia. O criador de conteúdo conhece o poder do trabalho com marcas e outras entidades e sabe que a fórmula funciona.
O que não funcionou foi a reprodução do modelo de negócio no futebol. Ou, pelo menos, não foi suficiente. Se as marcas saírem do digital, a profissão perde a dimensão que tem e o negócio deixa de ser sustentável para os criadores. Das duas, uma: ou existem outras fontes de receita que lhes permitem manter as redes por gosto ou é o fim do projeto. Sem os patrocínios, no futebol acontece exatamente o mesmo: é necessário que outra fonte de investimento garanta o negócio. Mas, quando os patrocinadores falharam, não havia plano B.
Falar do Villa Athletic Club equivale a falar de um projeto forte o suficiente para atrair nomes como Edinho, internacional português, André Carvalhas, formado no Benfica, ou o treinador Meyong, antigo jogador do Vitória de Setúbal. Poucos meses após o clube ser fundado, contudo, surgiram queixas de salários em atraso, notícias de falta de comparência a jogos e licenças retiradas para utilizar um estádio em Ponte de Sor, onde a equipa ia apenas jogar, treinando em Lisboa.
O que lhes foi apresentado, afinal?
“Era um projeto de continuidade. Era ambicioso. Queriam o clube na primeira liga em poucos anos, acho que eram oito ou 10. Não era, por exemplo, criar uma equipa este ano e para o ano a maior parte dos jogadores iam embora e iam buscar outros. Continuava a maior parte da equipa junta e, claro, ia-se reforçar a equipa, como é normal, mas ficava ali um grande núcleo. Era um projeto que tinha, de facto, pernas para andar e tudo o que foi apresentado parecia bater certo, mas depois não”, explica Francisco Pardana.
O que correu mal no Villa já não é uma surpresa a esta altura. O clube começou a deixar salários por pagar aos seus jogadores até que o presidente foi obrigado a terminar o projeto por não ter forma de o sustentar. O campeonato já tinha começado, não era o momento de os clubes se reforçarem e, de repente, todo o plantel ficou sem saber o que fazer a seguir. Na prática, o ‘conto de fadas’ só durou um mês.
“Começamos a desconfiar quando começaram a atrasar os pagamentos, logo no primeiro mês”, diz Francisco, que foi um dos que, apesar de tudo, teve a sorte de não ver esse pagamento atrasar por estar a trabalhar a recibos verdes. “Depois começou a atrasar, começámos a querer respostas junto com o presidente e começámos a ver que ele estava um bocado nervoso. Ao início escondeu, depois foi dizendo as coisas por meias palavras e depois acabou por nos dizer tudo, que o projeto era sustentado com os tais patrocínios e que, afinal, os patrocínios já não iam mandar dinheiro nenhum”.
Tudo antes do caso ser tornado público. Na altura em que fora do balneário ainda se acreditava no projeto, os jogadores já tinham feito “três ou quatro reuniões” para tentar solucionar o problema. Não foi possível.
MUDANÇA DE PLANOS
Sem clube, uma fonte de rendimento e perspetivas para o futuro, o grupo de futebolistas teve que procurar soluções.
“Na altura andei a fazer os contactos que tinha a fazer, à procura de integrar um novo projeto. Acabei por receber algumas propostas. No entanto, nenhuma que realmente desejasse na altura. Não ia de acordo com o que pretendia”, conta Pedro Lagoa à Tribuna Expresso. “Neste momento estou com outros projeto em mãos. Eu também pertenço a uma consultora imobiliária e estou a desenvolver esse negócio”.
Para quem, como o jogador, fazia do futebol vida, mudar pode ser um pouco difícil, mas, neste caso, Pedro passou de uma área que gostava para outra: “Foi fácil porque considero-me uma pessoa ambiciosa e que não gosta de estar parado. Não sou de ficar a remoer sobre as coisas porque correram mal. Esta área sempre foi uma área que eu gostei também e além de voltar a estudar, que estava a tirar o curso de engenharia informática quando parei para ir para o estrangeiro, esta é uma área que realmente gosto e que me vejo a fazê-la”.
Para os que optaram por continuar na modalidade, as coisas foram mais difíceis. Não se tratou apenas do facto de muitos clubes já terem o plantel fechado - o Villa já tinha feito um jogo e isso teve influência.
“Era muito complicado arranjar clube ou, pelo menos, um clube que fosse desportivamente bom para nós. Falei com um ou outro empresário que conheço, um ou outro amigo. Na minha cabeça passava um bocado por tentar voltar aos campeonatos nacionais. Como já tinha feito um jogo pelo Villa, esta época já só poderia jogar por mais um clube. O próximo clube que eu fosse e jogasse teria que ser até ao fim da época, então pensei que tinha que escolher bem”, enquadra Francisco.
Além das dificuldades físicas, naturais para qualquer atleta que passa algum tempo parado, estes jogadores tiveram também que lidar com o problema a nível psicológico. O ritmo competitivo diminui, mas é possível não parar os treinos. Francisco, que é guarda-redes, recorda até a altura em que era a mãe que o ajudava a treinar. Mas lidar com todo o lado emocional da situação é mais difícil.
“Acaba por ser um pouco triste até porque nós sabíamos o grupo que tínhamos, as condições que tínhamos para fazer algo mais e vermos isso tudo a cair por terra, e nós a tentar fazer de tudo para levantar novamente o clube e não ser possível”, lamenta Pedro Lagoa, lembrando a ressaca da extinção da equipa.
Para Francisco, a altura em que tudo aconteceu foi difícil, mas nada se compara ao que veio em seguida: “Foram dias que não foram fáceis. Psicologicamente não foi fácil. É o peso emocional que já temos de ter escolhido mal, de tudo o que passámos, e o peso de ‘agora o que é que eu vou fazer?’. No início, logo quando acaba, parece que a ficha ainda não tinha caído bem, mas depois, com o passar do tempo, começa a ser cada vez mais difícil”.
“QUEM SE ESCONDEU FOI O PRESIDENTE”
Pedro deixou o futebol e não tem previsões de voltar e Francisco acabou por assinar pelo Oriental Dragon FC. Na altura em que as coisas não estavam tão certas nas suas vidas, foi a solidariedade entre os jogadores e o apoio do futebol português que ajudaram naquilo que foi possível.
“Fizemos de tudo para nos ajudarmos uns aos outros, com os conhecimentos que temos dentro deste tempo que temos de futebol. Acredito que as equipas tenham prestado atenção e sabiam que havia qualidade ali para darem oportunidade”, explica Pedro.
“Houve até um empresário que falou comigo e disse que estava a ajudar os jogadores do Villa porque ficou sensibilizado com a nossa situação. Muitas outras pessoas, mesmo não podendo ajudar diretamente, enviavam uma mensagem a perguntar se estava tudo bem, colegas de profissão que eu nunca tinha falado, agentes desportivos. Houve muita solidariedade. Inclusive o próprio mister Sérgio Conceição que doou alimentos a alguns dos nossos jogadores que viviam numa casa, enviou um carregamento enorme”, acrescentou Francisco.
E da parte do Villa? Depois de tudo o que aconteceu, o clube ficou ao lado dos jogadores neste momento difícil ou retirou-se totalmente de cena?
Alguns membros do clube ficaram. Francisco Pardana realça o apoio do diretor-desportivo Pedro Campos Ribeiro. Além de ajudar o grupo de jogadores que vivia na mesma casa, manteve o contacto com todos e tentou ajudar sempre que conseguiu, até mesmo financeiramente.
Mas há também quem não tenha voltado a aparecer.
“Quem não ajudou, nunca mais disse nada e se escondeu foi o presidente, o Conguito, e o vice-presidente também. Nunca deram uma palavra aos jogadores. Nós tentámos por diversas vezes confrontá-lo e a verdade é que ele se escondia muitas vezes, dizia que não podia ou tentava conversas um a um, parecia que não queria enfrentar o grupo como um todo, mas nós sempre tentámos fazer as coisas nesse sentido porque é assim que as coisas têm que ser feitas e tratadas”, afirma Francisco.
O caso do Villa é, provavelmente, um dos mais extremos no que ao futebol distrital diz respeito, mas o tema dos salários em atraso não é novo. Manter os clubes, principalmente nestes últimos anos depois de uma pandemia e com a situação económica atual, é tudo menos fácil. Para que seja possível garantir que os jogadores não continuam a ser apanhados nestes problemas, Francisco Pardana deixa uma proposta à Federação Portuguesa de Futebol.
“Isto também passa um bocado pela federação tomar medidas para analisar se, de facto, os clubes podem garantir as condições que acordam com os atletas porque acho que falta um bocado esse rigor e essa disciplina. Esta aqui foi um pouco mais grave, mas existem situações destas de incumprimento salarial, de dizerem que é uma coisa e depois é outra. Infelizmente, continua-se a verificar e acho que é uma coisa que se vai verificar sempre se não se tomarem medidas mais sérias”, antecipa, prevendo que situações semelhantes possam vir a surgir."
in tribuna.expresso.pt