
A
invenção japonesa montada em cima de milhões de telhados
Quando se pensa em invenções japonesas que mudaram o mundo,
provavelmente vem-nos à memória o Walkman da Sony ou os relógios de
pulso de quartzo. Contudo, é quase certo que a esmagadora maioria das
pessoas não faz ideia que tem uma invenção japonesa no telhado ou na
casa dos vizinhos.
Refiro-me à antena Yagi-Uda, muitas vezes, de forma ingrata,
designada simplesmente por antena Yagi - e digo ingrata porque Yagi e
Uda foram os responsáveis pela que deverá ser a antena mais comum no
mundo. Importa contar um pouco da história destes dois homens e da
antena que conceberam.
Hidetsugu Yagi (1886-1976) era engenheiro eléctrico e professor
na Universidade de Tohoku, tendo como assistente Shintaro Uda
(1896-1976), quando, em 1926, os dois apresentaram uma antena nova,
direccional e relativamente fácil de construir, tendo registado
patentes, inclusivamente nos
Estados
Unidos. Na verdade, importa referir que a antena foi concebida
sobretudo pelo Uda, com a contribuição do Yagi, chefe do primeiro.
Hidetsugu Yagi. Fotografia em domínio
público (anterior a 1945).
Vale a pena salientar que, na época, a radiodifusão (na Onda
Média, Onda Longa e Onda Curta, bem antes da tecnologia de modulação
em frequência (FM) ter sido inventada) estava a dar os primeiros
passos em muitos países, as poucas emissões de televisão existentes no
mundo ainda eram feitas com recurso a tecnologia mecânica e a
electrónica era feita de válvulas (o transístor não havia sido ainda
inventado). Apesar das limitações tecnológicas, já existiam aplicações
civis e militares onde a nova antena podia ser útil.
Mas… o que é uma antena Yagi-Uda?
Podemos dizer, de uma forma muito simplificada, despida de
termos técnicos complicados de entender por leigos, que uma antena
Yagi-Uda é constituída por um dipolo (elemento "A" na imagem mostrada
em baixo), por um elemento reflector ("B") e por vários elementos
parasitas ("C" na imagem):
Um cabo de transmissão entre o emissor ou receptor e a
antena é ligado ao elemento"A" no ponto "D". Pela configuração da
antena ilustrada, o ganho de sinal máximo, que permite a melhor
qualidade de recepção ou emissão possível, ocorre para os sinais
vindos da direita; se a antena estiver orientada na direcção
Oeste-Este, a antena captará melhor os sinais vindos de Leste e os
sinais vindos de outras direcções (Norte, Sul, Oeste etc.) terão um
desempenho consideravelmente inferior.
Perguntará o leigo curioso: mas, por que razão há antenas
Yagi grandes, com elementos de mais de um metro de comprimento, e
antenas Yagi pequenas, com elementos de escassos centímetros? A
explicação prende-se com a(s) frequência(s) que se pretende captar (ou
irradiar). Por exemplo, no tempo da televisão analógica era (e ainda
é, já que muitas não terão sido removidas dos telhados) comum ver, na
região Centro de Portugal ou no Alto Minho, antenas Yagi das "grandes"
para televisão, usadas para receber o sinal da RTP 1 na banda VHF-I,
através dos emissores da Lousã ou do Muro. Já a RTP 2, a SIC e a TVI
operavam, na maioria dos emissores e retransmissores, em UHF, exigindo
antenas de menor dimensão para serem captadas. Frequências mais baixas
(comprimentos de onda superiores) exigem, para um bom desempenho na
recepção (ou emissão) antenas maiores e as frequências mais altas
(comprimentos de onda menores) implicam antenas mais pequenas.
Dependendo das características de emissão (polarização), uma
antena Yagi de recepção pode funcionar na horizontal ou na vertical,
conforme a orientação da antena emissora.

Antenas Yagi-Uda na Segunda Guerra
Mundial
A primeira utilização massiva de antenas Yagi foi nos sistemas
de radar aerotransportados, durante a II Guerra Mundial. Vários
países, incluindo os Estados Unidos, o Reino Unido, a Alemanha, entre
outros, beneficiaram das vantagens da antena japonesa. Ironicamente,
muitos engenheiros de radar nipónicos não faziam a mínima ideia de que
a antena tinha sido desenvolvida no país, até quase ao final da
guerra. Tal desconhecimento devia-se, entre outros factores, à
rivalidade entre o Exército e a Marinha do país do sol nascente, bem
vincada na época.
As autoridades militares japonesas tomaram conhecimento da
tecnologia pela primeira vez depois da ocorrência da Batalha de
Singapura, quando capturaram as anotações de um técnico de radar
britânico que mencionava "antena yagi". Os oficiais de
inteligência japoneses nem sequer reconheceram que Yagi era um nome
japonês neste contexto. Questionado, o técnico disse tratar-se de uma
antena com o nome de um professor japonês.

Sistema de antenas Yagi-Uda utilizado no nariz dos aviões
Messerschmitt Me 110 G-4 da Força Aérea alemã, para o funcionamento
dos radares FuG 220 e FuG 202. A fotografia terá sido tirada em Agosto
de 1945.
A emergência da televisão e da
rádio FM faz "renascer" o interesse pelas antenas Yagi-Uda
Após o término da II Guerra Mundial, a popularização da
televisão em muitos países fez com que, cada vez mais, fossem
instalados mastros com antenas Yagi-Uda nos telhados das casas.
Também nos locais de recepção difícil das rádios em FM, as antenas
Yagi ajudavam a melhorar consideravelmente a situação. Ao ser uma
antena direccional, a Yagi permite captar melhor o sinal vindo da
direcção para a qual está apontada, atenuando as interferências dos
sinais vindos de outras direcções. O facto de poder ter também um
ganho razoável a elevado permite melhorar a recepção de sinais de
televisão ou rádio muito fracos.
Antenas Yagi-Uda nos telhados das casas
de Aigues-Mortes, na França. Note-se que uma das antenas no centro da
imagem não é Yagi, é uma antena de painel, mas todas as outras são
baseadas na antena Yagi original. Fotografia da autoria do utilizador
"Luk" e
disponibilizada
na Wikimedia Commons sob licença "
Licence
Art Libre".
No que diz respeito à rádio, a antena Yagi é usada não apenas pelos
ouvintes mas também, por vezes, pelas próprias estações de rádio,
sobretudo nos centros emissores ou nos retransmissores. Quando um
determinado emissor é alimentado pelo áudio da emissão FM de outro
emissor, uma antena Yagi reduz significativamente o risco da qualidade
de recepção ser afectada por interferências de outras estações na
mesma frequência ou nas frequências adjacentes, sejam interferências
permanentes ou ocasionais (devido a
condições
de propagação que permitem a recepção de estações distantes).
Outras utilizações das antenas
Yagi-Uda
A antena é amplamente usada não apenas em aplicações militares
ou profissionais, cujas comunicações são, em teoria, vedadas ao
público em geral, como é igualmente empregue para outros fins. Muitos
radioamadores utilizam antenas Yagi de grandes dimensões para
comunicar via HF (Onda Curta) a milhares de quilómetros ou antenas
mais pequenas para conversar a dezenas de quilómetros em VHF, entre
outros exemplos.
Antena Yagi de grandes dimensões,
provavelmente utilizada por radioamadores. Imagem da autoria de
Aarchiba (domínio público).
Redes móveis, Wi-Fi e outras
tecnologias
Com a chegada ao mercado de novas tecnologias, começou a haver
situações onde uma antena Yagi-Uda ainda é útil quase 100 anos depois
de ser apresentada ao mundo. Nos locais onde a rede de telemóvel é
fraca ou o sinal de Wi-Fi deixa muito a desejar, uma antena Yagi pode
marcar a diferença entre não conseguir realizar chamadas ou navegar na
Web e conseguir desfrutar das novas tecnologias com o mínimo de
qualidade. Claro que uma antena não faz milagres, mas uma antena
adequada pode ajudar muito.
Resumindo, a Yagi-Uda é um tipo de antena que ainda tem
milhares de aplicações, umas mais óbvias, outras menos conhecidas, mas
que têm em comum o facto de, com maiores ou menores variações, mercê
das exigências técnicas, o princípio de funcionamento das antenas Yagi
mantém-se o mesmo há praticamente um século.