Gostei da maneira com o Paulo Fragoso se despediu ao fim 32 anos e 6 dias, só continuo a não gostar do tratamento por tu, a mim soa-me mal.
Esse tratamento por tu, transmite uma falsidade enorme, num momento eminentemente comovente.
Há aqui muito mais detalhe e profundidade do que isto, e só mesmo quem ouviu em direto pode entender - e eu ouvi em direto.
Houve duas despedidas: uma das 17h33, outra que foi... isto.
A das 17h33 foi logo assim que ele terminou o trânsito e sem qualquer aviso prévio e foi linda, genuína, rádio dentro da rádio, com palavras muito bonitas e um Paulo Fragoso que fechou até de voz embargada, sem trilha e a seco. RFM clássica, quem ouvisse emissões no final dos anos 90 e ouvisse esse momento foi igual, igual igual.
Esta, às 17h50, não me parece nem um bocadinho escrita por ele, mas sim por alguém que não ele, porque não tem aqui uma série de coisas que o Paulo Fragoso costuma fazer. Foi produção. Claro, palavras alheias na boca de outra pessoa, dá nisto. Alguém, certamente que não ele, quis isso de certeza.
Mais 2 detalhes: o "obrigado por tudo" que saiu neste reels só saiu mesmo neste reels, porque na emissão em direto foi direto para o indicativo de publicidade e foi cortado; e quem ouviu em direto percebe que isto foi um take gravado de despedida, porque o Paulo Fragoso entra muito ligeiramente por cima do nome da estação neste vídeo, mas na emissão da RFM em direto ficou antes precisamente meio segundo.
Último detalhe interessante: foram para cerca de 7 minutos de publicidade, e quando voltam, às 18h00, o jornalista não tem ninguém a dar-lhe entrada como habitual e a 1ª coisa que faz é agradecer ao Paulo Fragoso e saudá-lo em antena, pausa 2 segundos, vai para as notícias (com um conector
muito bem executado, gostei). O único problema: ficou uma ilha no meio da emissão, porque depois disto seguiram-se mais 3 minutos de publicidade até vir o 6PM. O que é custava fazerem juntar aquela despedida genuína das 17h33 para o horário mais tarde e juntarem-lhe a informação, quem produz a rádio?
É canónico: mostra os vícios de forma da RFM de hoje e os contrastes entre os dois momentos, e é uma raríssima altura em que a RFM esteve em genuíno direto e sem estar em genuíno direto, a tentar fazer rigorosamente igual duas coisas diferentes. Claro, deu asneira. Quem produz não percebe que quem está em antena tem que estar livre, não preso, e o contraste foi profundo. Nestes momentos mais fora da caixa nota-se demasiado bem, mas aqui foi flagrante.
Nota negativa para o Pedro Fernandes e a Mariana Alvim no arranque do 6PM, com um take muito infeliz no topo da hora com o Pedro a dizer que "estão no 6PM, na última emissão ... (micro pausa) desta semana" e a Mariana Alvim toda escandalizada "ai, da maneira que tu disseste até parece que acabava hoje!" e o Pedro "pois, estamos ainda até quando der, que isto nunca sabemos o dia de amanhã". Fiquei sem palavras quando ouvi.
Acho que nunca trinta minutos de RFM foram tão ricos em contrastes, contextos e substratos como estes. Aproveitemos!