Dei-me conta, por mero acidente de percurso, numa pesquisa de hoje, que o website da Emissora das Beiras ainda está ativo, apenas "camuflada" a primeira página, que redireciona para a Observador. Toda a secção de notícias, mas também outros separadores, como os dos contactos, permanecem ativos:
https://emissoradasbeiras.pt/contactos/Não sei se foi ou não intenção da Observador manter o arquivo de notícias, que é a parte mais acessível, até a partir das pesquisas indexadas, foi assim que lá cheguei.
Incrivelmente, a FCT não arquivou uma única vez o site da mais antiga rádio local de Portugal, não há nada no arquivo.pt, vá lá que o WayBackMachine o fez.
Acabei por esbarrar num artigo da Liliana Carona da RR, publicado no Público, que penso não ter sido partilhado por aqui, que vou citar, porque me mereceu alguns considerandos:
https://www.publico.pt/2025/05/07/impar/cronica/dia-apagao-lembreime-maria-helena-2132064[Entre retos, alguns comentários meus]No dia do apagão lembrei-me da Maria Helena
Para as rádios locais têm sido vários dias de apagões. Dias a que ninguém presta atenção, apesar de os números poderem ocultar a verdadeira realidade. De acordo com o registo da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), no país há 319 rádios, 306 de cobertura local, cinco de cobertura regional e seis de cobertura nacional. Mas a maioria das rádios locais não vive, sobrevive como pode, na incerteza de continuar a poder fazer os discos pedidos ou a dar as notícias da terra.
[Seis regionais: óbvias TSF, M80, a que acrescem o Posto Emissor do Funchal, Antena 1 Madeira, Antena 1 Açores e Antena 3 Madeira]Sabemos que muitas destas rádios locais já não são rádios locais. Asseguram os blocos noticiários a metro para cumprir com a legalidade imposta — artigo 35.º da Lei da Rádio — difundir, de forma regular e diária, pelo menos três serviços noticiosos, entre as sete e as 24 horas, muitas vezes recorrendo a empresas subcontratadas para o efeito ou produzindo a informação a partir de Lisboa, para rádios locais, ditas da região de Viseu, por exemplo, mas com sede e morada na capital.
[Que trancada a pés juntos em Alvalade, e não são as habituais verdes e brancas; Foi o Zeca que escreveu este parágrafo? Ou pelo menos foi inspirado nos escritos dele.]O destino parece fatal e traçado, como o que aconteceu a 5 de julho de 2024, data da despedida da locutora Maria Helena dos microfones da Radio Emissora Beiras, hoje Radio Observador Viseu. O anúncio da compra da frequência 91.2 foi anunciado meses antes, em maio do ano passado e nem as centenas de comentários de ouvintes nas redes sociais implorando para que Maria Helena continuasse a fazer-lhes companhia foram suficientes para inverter a predestinação.
[Predestinação = Falta de Dinheiro]É que no nosso pais, subsistem ainda muitas zonas, onde em casa apenas se ouve radio, não havendo Internet nem streaming.
[A/C Dr. Nicolau com Laço mas Sem Botões... e Companhia Ltda.] Por isso, Maria Helena foi muito mais do que uma locutora de radio, durante décadas foi a única companhia de muito boa gente que todos os dias, bem cedo, sintonizava a Emissora das Beiras, para só a desligar ao adormecer.
[Segmento amplamente esquecido no mercado de rádio, que começa a verdadeiramente, com a "predestinação", a ser uma falha de mercado, que cabe ao Serviço Público suprir].Era a radio local mais antiga do pais, fundada em 1939, a Emissora das Beiras, antiga Radio Poio Norte, tinha nascido pelas mãos de Joaquim António Seabra, doente na antiga estância do Caramulo, que estudava engenharia radio elétrica e começou, juntamente com outros dais doentes, a fazer radio, ali mesmo nos quartos do sanatório. Terá permanecido na estancia durante um ano, ate que se construiu um prédio de raiz para albergar a Radio Polo Norte.
Nessas instalações trabalhava uma empregada de limpeza que tinha uma filha de 11 anos, Maria Helena de seu nome.
Saiu da escola cedo e foi trabalhar para uma alfaiataria, mas com o sonho de entrar no mundo da rádio. E conseguiu, no dia 1 de abril de 1965, na Emissora das Beiras, onde começou por arrumar os discos e a ler as cartas dos discos pedidos. Em janeiro de 1971, Maria Helena dava inicio a locução. "Fazíamos a locução em pé. Nunca estive nervosa. Pagavam um escudo por cada disco. Fomos das primeiras rádios a fazer o "quando o telefone toca' com os pedidos das pessoas, gravados e emitidos no ar", recorda, sobre a rotina que só parava a Sexta-feira Santa, quando se fazia manutenção aos equipamentos.
[Versão 2026, satírica, deste parágrafo:Saiu para Lisboa cedo, para estudar na Universidade do Vaticano, com o sonho de entrar no mundo da rádio. E conseguiu, no dia 1 de abril de 2025, um estágio IEFP na BigVilaFM, onde começou por fazer redes sociais, a gravar 4 TikToks por dia e a escrever umas piadas sem graça para os influencers residentes, como produtora. Em janeiro de 2026, meses depois, e graças ao crescimento de 5000 seguidores em pouco mais de meio ano, e também já ela influencer, depois da reformulação da grelha trimestral na BigVilaFM, começa como animadora no matutino Já Tocou o Despertador. "Animava em pé, porque entre gravar TikToks não dá muito tempo, e falamos uma beca que nem é preciso sentar, além de que ajuda a não ter sono. Estou sempre bué chill, mesmo com dois cafés tomados até às 08h. Ganho menos de 1000€, mas o que saco em #pub compensa. Somos pioneiros no digital, onde há bué interação com os ouvintes no TikTok e no Insta, na rádio também temos o Whatsapp, mas nem sempre há muitas mensagens, às vezes inventamos. Os fins de semana gravamos ali num rapidinho", explica, sobre a rotina que só acontece quando não está em viagem num qualquer destino paradisíaco, a fotografar biquinis ou a gravar mais um programa de Domingo à noite para a Televisão. Fim da ironia: inspirada em ninguém, personagem tipo, não há associação a A, B ou C, antes que alguém se sinta melindrado, é mais crítica ao sistema do que a quem tem de crescer nele para fazer o que gosta]Uma radio próxima, familiar, que funcionava em tríodo, com o marido de Maria Helena, Lopes da Rosa, gerente e diretor de programas, e a filha, Marta como jornalista.
[Tal como em algumas mais conhecidas...]
Com a morte de Lopes da Rosa, em agosto de 2023 e com poucos apoios, a estação acabou por anunciar em comunicado que a "decisão, difícil de tomar", tinha acontecido porque, "na verdade, nada dura para sempre", e que com a partida de Lopes da Rosa "tinha partido também parte da alma da radio que foi, durante 85 anus, o orgulho de todos os beirões''.
Questionei, entretanto, o que tinha acontecido à história daquele local. O edifício (arrendado), localizado no Caramulo, ao pé do também já extinto posto da GNR, foi entregue ao proprietário, e o espólio (vinis e material sentimental) ficaram com a família de Maria Helena.
[Por acaso, pensei que a Observador tivesse ficado com os estúdios lá, e que a filha da Mª Helena tivesse integrado o grupo. É pena.]"Foi e é complicado. Não consegui mais ouvir radio, nem no carro. Vai-se vivendo de recordações, o que não e fácil", disse-me ela, aos 71 anos, com 60 anos de radio.
[Compreensível, e também não sei se haverá, nas redondezas, muitas rádios que possam cativar a atenção de um público de 70 anos]. Tantas condecorações e o nosso Presidente da República ainda não viu a Maria Helena. Que pelo menos a Câmara Municipal de Tondela saiba reconhecer, ainda em vida, a voz desta mulher.