Depois de tão interessante discussão sobre as antenas da rádio pública, deixem-me dar nota do seguinte:
1. Aumentar a oferta de outras rádios em FM não exige privatizar as Antenas. Já dei várias vezes o exemplo, veja-se o que se faz em Espanha, em algumas cidades como Madrid e Barcelona, nem sequer falamos de mais coberturas como emissores reduzidos, falamos mesmo de monstros a operar. Aqui nem precisávamos de tanto para completar as redes à TSF, M80, Observador, MegaHits e Cidade FM.
2. Privatizar qualquer uma das Antenas, ou mesmo acabar com elas é um erro:
A) A Antena 1 terá de ser a rádio generalista por excelência. Tem, isso sim, de evoluir para ser uma rádio exclusivamente de palavra. O serviço público deve fazer diferente, porque, como todos sabemos, é pago pela CAV. O tempo que se gasta em música na Antena 1, no linear, com programas que não são de autor, é absurdo, um erro. Aqui, tem toda a razão o Atento, o desporto na Antena 1 é mais mal tratado do que na CAN RADIO, que mesmo sendo a emissora regional das ilhas, faz relatos da Liga Espanhola. Eu não seria consumidor de desporto, mas sejamos sinceros: não ter emissões desportivas 100% dedicadas ao final da semana, até ás 24h, só serve um único interesse, que é o da Olivedesportos. Não estou a dizer que seja um arranjinho, simplesmente, é, na verdade, quem beneficia com uma ausência de cobertura verdadeiramente eficaz do futebol, mas também das demais modalidades. A RTP, neste capítulo, trata muito mal o interesse público. O pior é que a RR faz exatamente a mesma coisa, ou melhor, ainda pior, diferentemente do que ocorre em Espanha.
B) A Antena 2 é uma rádio essencial, Portugal sendo um país Europeu, fortemente marcado pela cultura erudita, estar-se-ia a colocar ao nível de Marrocos, o que não pode nunca acontecer. Que a Antena 2 para chamar público possa adotar na sua playlist, para além da clássica e do jazz puro, alguma da seleção da Smooth FM, paercer-me-ia muito interessante. Os programas mais fora do mainstream, como aquele inenarrável que dá na madrugada, que me faz pensar imediatamente naquela cultura de elite, que se promove em Serralves, que toda a gente para parecer bem diz ser excelente, mas em "off" ninguém percebe bem o que é, está a capturar a Antena 2. A parte de palavra que a 2 tem, com exceção das pequenas rubricas, deve passar toda para a Antena 1, que é onde tem de estar. A Antena 2 está mal classificada, tem de ser temática musical - erudita. Não tenho dúvidas, com isso ganharia público. Tem ainda de ter painés de continuidade das 07h às 23h seguidos, fechar a emissão linear às 21h, e interromper para o almoço, é absurdo. Deve ter noticiários nos topos das horas, ao estilo dos da Comercial/M80 com 2 a 3 minutos e até podem ser com uma trilha clássica por baixo, que lhes imprima ritmo. E, por favor, acabem com as preleções do Costa Santos, que é uma pessoa interessantíssima de se ouvir, mas perder 20 minutos a ouvir sugestões culturais, é demasiado.
C) A Antena 3 está no bom caminho, mas ainda precisa de se abrir. A Antena 3 tem de concorrer diretamente com as musicais, num equilíbrio difícil entre o fazer diferente, sendo parecida. Tem de ter mais música mainstream, e converter o que é bom do alternativo em mainstream. Porque a rádio tem esse poder, esse passo de mágica. É a rádio que faz o público na música, fundamentalmente. Lamento muito a quem não gosta de ouvir isto, mas a Prova Oral não é programa para a 3, muito menos naquele horário. A maioria dos programas de autor, ou são relegados para as madrugadas, ou têm mesmo de acabar. A 3 não pode ser uma SBSR. Tem de ter emissão linear entre as 07h e as 24h, também com noticiários curtos de 2/3 minutos, e mais focados num público jovem, feitos por jornalistas jovens, e com temas que lhes interessem. Tal como a Antena 1 deve fazer, tem de usar as capacidades instaladas nos diversos centros de produção, mormente para trazer a Antena não apenas os protagonistas de Lisboa, do mundo musical, contribuindo para a criação de outros clusters que não apenas a bolha que gravita em torno da capital. A 1 tem de fazer o mesmo nas outras áreas do saber.
D) África: deve manter-se em operação na AML, porventura até com um reforço de emissor na margem sul, mas com potências de locais, isto se existir audiência que justifique tal. Quanto ao mais, deve avançar-se rapidamente para a criação de uma rádio notícias, como a RNE-5, onde caiba também a informação regional, que não pode ficar limitada a 1h diária, e que vai de férias prolongadas. Mas é mesmo para fazer coisas bem feitas, não é para ir atrás do cacique com o microfone em punho. Em tempos já pus aqui como deveria ser a distribuição dessa rede regional, não vou repetir, mas que envergonha o serviço público português não ter este acompanhamento, essa é uma verdade. Aqui poderiam existir sinergias claras com a RTP3.
E) Antena 1 Madeira e Açores: não podem, em qualquer circunstância, impedir a transmissão do som nacional da Antena 1. Devem ser integradas na rede regional, que operará para todo o país. Em todo o caso, esta semana que passou tive a oportunidade de sintonizar por várias vezes os 95.5 do Pico do Areeiro e estavam sempre a retransmitir a emissão nacional. Mas estamos em Agosto, pode ser o caso de estar tudo de férias. A Antena 3 Madeira, então essa, não tem qualquer cabimento a sua existência.
Em suma, o problema da RTP é ser uma casa a arder, porque não tem gestão, e por vezes, dá a sensação de que a que existe não consegue ter pulso para mandar. Eu não quero uma rádio pública subordinada aos poderes políticos e a gestores que entendam que os funcionários são seus e não do povo português. Mas também não quero uma empresa que não se abra, que não se faça mais porque não interessa, porque há quem queira emprego e não trabalho (e longe de dizer que é o caso, a RTP tem profissionais de excelência). Quero uma RTP que tenha meios para os funcionários desempenharem convenientemente as suas funções, para que a audiência possa aparecer. Não vai ser do dia para a noite, mas se se trabalhar com afinco, pode-se chegar lá.
Nota: Esta reflexão, numa grande parcela das suas componentes, aplica-se também a outros grupos de rádio, com as devidas diferenças associadas ao financiamento da operação.
C)