Ponto prévio: alguém me consegue explicar o motivo de a soma da AAV dos Grupos ser inferior à soma das rádios que os compõem? Não é erro do post, já nas vagas anteriores assim acontece.
O consumo de rádio em Portugal nunca foi tão elevado em 47 anos de democracia. Um dado absolutamente fascinante. Apesar de ser um dia muito feliz para a rádio, em que se prova que o "video didn't kill the radio star", alguns sinais devem-nos deixar alerta. A vaga que agora se conheceu, acentua ainda mais um aspeto crÃtico sobre o tipo de auditório que Portugal tem e os seus interesses. Isto independentemente de todas as considerações que se possam tecer sobre o estado lastimável a que chegou a RDP com as sua agenda própria de subserviência ao poder instalado e, mais recentemente à deriva na TSF.
Vejamos, as três primeiras posições do pódio são ocupadas por rádios de "música a metro" maninstream, mais atual ou mais envelhecida, pouco importa. Rádios essas onde existe pouquÃssima palavra, um noticiário dura, no máximo dos máximos 3 minutos, não há uma entrevista polÃtica, desportiva, cultural... nada! Três rádios que são um vazio de ideias, consumo fácil.
O eixo RR/A1/TSF/OBS vale 14,5%. A audiência agregada destas estações corresponde a 2x a posição da terceira classificada M80 e, num hipotético cenário em que se fundiam numa única, para atingir a liderança ainda precisariam dos 5,2% da Cidade FM. Aliás, o grupo dominante, a MCR não tem no seu portfólio de cinco rádios uma única informativa ou onde exista sequer 5 minutos dedicados à análise polÃtica/económica/social/jurÃdica/cultural. É o paraÃso para os agentes polÃticos... nem é preciso (tentar) controlar a comunicação social, quem a escuta só quer música e fofocas. Quando o povo já não quer saber sequer de informação, algo vai mal. Junta-se a este caldo a audiência totalmente insignificante da erudita Antena 2, que ocupa uma rede nacional e percebemos que o consumo de rádio espelha de forma trágica a nossa sociedade e, de certa forma, o porquê de sermos um dos paÃses mais atrasados da União Europeia e da OCDE: o português não se interessa pela realidade, por cultura, por nada que verdadeiramente valha a pena dispender algum tempo.
Na análise mais fina, a Média Capital Radios é a vencedora em toda a linha, o que aumenta o valor de mercado do grupo que, ao que tudo indica, será adquirido brevemente pelo gigante alemão Bauer.
A Rádio Comercial e a RFM crescem equitativamente face à vaga anterior, com uma vantagem de 0,1% para a Comercial, que alcança o melhor resultado de sempre de uma rádio em Portugal. Não obstante, em termos homólogos, face à quarta vaga de 2020 o crescimento da RFM é bastante mais significativo, 3,6% contra 2% da Comercial. Há um ano estas rádios estavam separadas por 2%, hoje essa diferença esbateu-se para 0,4%, o que significa que a RFM encurtou a distância em 80% face à um ano, estando numa trajetória de crescimento mais acentuada que a Comercial, que tem um declive da curva bem menos acentuado. A RFM ganha no Porto, algo que se nota claramente nas iterações dos ouvintes nos programas. A manter-se esta tendência, com uma RFM que tem sabido realizar uma renovação inteligente, onde destaco ter na hora de ponta da tarde um programa que dá alguma primazia à palavra e a um envolvimento do ouvinte, ainda que direcionado, a meu ver, a um público menos culto que a Comercial, poderá fazer chegar o segundo canal da Igreja Católica à liderança no inÃcio de 2022. A meu ver, será este o tempo de celebrar q.b. na Sampaio e Pina, mas ligar os alarmes, pois a batalha não está ganha. Em termos de número de emissores, a diferença é praticamente inexistente entre estas rádios, 29 para a RFM, 28 para a Comercial, ou seja, a inexistência de emissor na Serra Amarela é o que faz diferir a cobertura de ambas.
Na luta pelo bronze, a M80 leva a melhor sobre a Rádio Renascença. E aqui o número de emissores é um critério a considerar. A M80 só tem cobertura total na região sul do paÃs, sendo a maioria desta região constituÃda pelo Alentejo e Algarve, as áreas mais desertificadas. A Norte e Centro faz-se escutar com recurso a pequenos emissores concelhios, cujo o alcance é limitado, bem como a estabilidade da escuta, incluindo dentro dos próprios concelhos do alvará. Na maioria das frequências, tem horas locais que não permitem a escuta contÃnua da emissão, em viagem. E ainda assim, consegue ganhar à segunda melhor rede nacional de emissores, a da Católica Rádio Renascença. Note-se que a M80 cresce sempre mais que a RR, 0,2 e 0,4% em termos homólogos, contra 0,1% e 0,2% da emissora Católica Portuguesa. Ainda assim, note-se que a Rádio Renascença lidera nas manhãs, num programa que mistura boa informação com entretenimento e crÃtica social e que tem sido a alavanca do crescimento da RR. É a prova de que é possÃvel fazer um casamento que atraia as pessoas, sem as embrutecer, com vozes que não são sequer das mais mediáticas no panorama radiofónico português. Continuar o refrescamento da estação, ponderar devidamente a oferta em alguns horários e a escolha da playlist, conjugado com uma rádio como a M80 que tem um modelo esgotado per si, poderá levar a que daqui a um ano esta luta esteja bem mais intensa. Infelizmente, para já, perde a rádio mais erudita contra a mais popular.
No campeonato das jovens, mesmo considerando que a Cidade FM tem 10 emissores contra 8 da MegaHits, normalizando os resultados para esbater essa diferença, ainda assim a Mega sai com uma derrota pesada desta Bareme. A diferença acentua-se qualquer que seja o critério utilizado. E note-se, os dois emissores adicionais estão no território menos densamente povoado, mais envelhecido e portanto menos propenso à escuta desta estação. É verdade que a cobertura da Cidade FM é superior, mas a seu favor a Mega tem o facto de incumprindo a Lei da Rádio não promover emissões locais. Mais uma vez, e com as devidas "aspas" a rádio menos popular perde para a que tem um registo mais vulgar. Veremos se a aparente e recente deriva da Cidade quando atinge a melhor audiência de sempre não vai baralhar e dar de novo. A Cidade cresce 1,3 e 2,2 (vaga julho/vaga de outubro de 2020) enquanto que a Mega cifra-se nos 0,2% e 0,8%, ficando notória a dificuldade em acompanhar a tendência do setor. A definição de um novo público alvo, mais adulto, e para o qual de uma forma possivelmente inconsciente tem vindo a trabalhar, em detrimento dos mais jovens que têm sido muito bem agarrados pela Cidade FM poderia ajudar a recuperar, num nicho de mercado que não está devidamente explorado.
Quanto à Nova Era, cresce 0,1% (dados não disponÃveis para 2020), ficando patente algum esgotamento de uma rádio limitada a dois emissores que fundamentalmente estão sobrepostos, não comutam entre si, mas que muito faz com os meios limitados de que dispõe, próprios de uma local. Tudo aponta para que a Cidade FM estará a canibalizar alguma capacidade de crescimento da Nova Era. Os 0,5% da Meo Sudoeste bem que poderiam ajudar e em muito a Nova Era. Não se compreende a insistência em manter duas rádios jovens no grupo.
Nas ligas inferiores, as das locais, nota muito negativa: a rádio mais popularucha da AMP, aqui não tenho pudor em utilizar a palavra, é a local mais bem classificada, com quase tanta audiência quanto a Observador que detêm quatro emissores. É realmente lamentável e mais um dado que aponta para a degradação a que chegaram estas rádios. Não se justifica, de todo, alocar a frequência da 5, a menos que o emissor fosse deslocalizado para Santa Maria da Feira para cobrir melhor a sul, pois, neste momento são totalmente redundantes. Mas essa frequência merecia um bom projeto para a AMP.
Quanto à RDP, não há muito a dizer. É a destruição que se sabe, como foi bem dito, um panorama assustador. A Antena 1 perde 0,5% qualquer que seja a métrica utilizada, deixa-se ultrapassar pela Cidade FM, o que é verdadeiramente uma humilhação. Corre o risco de se tornar irrelevante, algo que não agrada nem a gregos nem a troianos, com uma playlist sem coerência que vai de temas da Cidade a músicas da Smooth, rubricas mal colocadas, repetições sem sentido, desaparecimento em combate do desporto, and so on, so on... Aqui já não é o alarme: o tsunami chegou mesmo e está a varrer tudo à sua frente.
A Antena 2 mantem a irrelevância, mas pelo que apurei ainda baixa. Péssimo sinal. A prova que precisa de se modernizar, sem perder a prática de passar temas eruditos, como se faz pela Europa fora, é o crescimento exponencial da ("concorrente") Smooth. Por ser pouco, passa despercebido, mas esta rádio dobra a audiência em termos homólogos e cresce 0,3% desde a vaga de julho. Quase 50% do crescimento é feito no último trimestre. É um resultado para lá de impressionante, para uma rádio com 5 emissores locais, (na verdade 4 pois 2 são redundantes), que embora excecionais, são por si limitados. Uma palavra de apreço para os poucos profissionais que metem o único verdadeiro produto de excelência da MCR no ar e que, neste dia de festa na Sampaio e Pina são os únicos que não têm direito a uma palavra pública de agradecimento por parte do CEO da empresa, o Dr. Bourbon. Continuem o excelente trabalho e lutem muito por esta rádio! É mais que merecido.
A Antena 3 lá cresce, sem saber como, muito pouco é certo, para uma rede nacional de emissores (0,2%). Mais nenhuma alternativa surge na tabela de mais escutadas. Não se percebe a insistência neste estilo. O crescimento da Cidade FM mostra o caminho que tem de ser feito na emissora 3 da rádio pública, até porque não há rádios jovens em quase todo o interior do paÃs.
A Ãfrica prova a sua total insignificância ao nem constar no Bareme. Que grande asneira esta de afetar quatro frequências a esta rádio, quando para cumprir o serviço público era mais que suficiente a de Lisboa.
Finalmente, a TSF estagnou. Face à turbulência que a empresa enfrenta em termos laborais e que se refletem também no mau estado do parque emissor, estranho é não ter regredido. Desconfio que se esta rádio não for vendida rapidamente, vai enfrentar um processo de caminho para a irrelevância, o que deixa imensa pena, face ao enorme patrimônio que constitui a marca TSF, e, apesar de tudo ao produto que (ainda) apresenta. A concorrente Observador, com 4 emissores face a 19 faz 1/3 da audiência deste grupo e cresce 33% entre vagas, o que é muito relevante também e mostra que está a fazer o seu caminho. Ainda assim, são rádios pouco escutadas o que só se compreende à luz dos tópicos que aflorei acima.