A esta hora (22:30), na zona sul do concelho de Gaia é praticamente impossível ouvir a Smooth FM em 89.5Mhz. O sinal da TSF (emissor de Monsanto) está quase ao nível dos que saem do Monte da Virgem.
Exatamente, mas mais, acrescento as dificuldades das 3 Antenas Públicas em linha de vista:
MegaHits a entrar na Antena 2, e também a Observador de Rio Maior
Antena 3 a entrar... na Antena 3, que faz com que nem uma nem outra estejam totalmente limpas
A mais problemática é mesmo a Antena 1 que está a apanhar forte com a Smooth FM.
Consegui captar os 89.5 de Monsanto da TSF... dentro da garagrm.
Mal abri o portão, logou RDS e RT, e a intercalar com 105.3, que estão também bastante pressionados pela OndeCero de Vigo em 105.4
Bem, “pdnf”, mostra-se deslumbrado com a propagação de sinais de rádio de outras regiões e países que chegam até à sua zona de residência. Tal não causaria problema, até teria a sua curiosidade, caso essas propagações esporádicas de sinal não atingissem as frequências de rádio da sua zona e que quer ouvir. Há casos em que é impossível ouvir um emissor ou centro emissor de uma zona porque está interferido por sinais de outros países ou de zonas longínquas do próprio país. Esse fenómeno, designado de salto troposférico, no qual emissores situados a centenas ou milhares de kms causam interferência nas frequências atribuídas a uma zona, constitui um dos grandes defeitos desta tecnologia secular que é o FM. Aliás, esse foi o argumento invocado em 1946 pelo regulador norte americano FCC (“Federal Communications Comission”) para alterar a banda de frequências dos 42 -50 MHz para 88 - 108 MHz.
Portanto, o que tem vindo a observar não é mais do que uma tecnologia defeituosa. Se isto acontece num país periférico como Portugal, imagine como será nos países da Europa central que fazem fronteira com vários países. Deve ser algo semelhante a uma mistura caótica de sinais de emissoras que se interferem mutuamente.
O DAB+ foi desenvolvido para dar resposta a esta evidente limitação do FM. Não é suposto chegarem sinais de rádio provenientes de emissores distantes e que não foram dimensionados para esse propósito, sobretudo, quando esses sinais afetam as condições de receção das estações de rádio da sua zona.
Caro João S,
Permita que esclareça algumas confusões. Vamos por partes:
1) Existem 2 fenómenos de propagação: condução troposférica e "E esporádica". No caso da condução troposférica, é mais previsível, ocorre geralmente com maior intensidade à noite, já que depende de inversão térmica na atmosfera, e permite captar rádios de outras zonas do país, mas também da vizinha Espanha, de Marrocos e até da Madeira e dos Açores, além das Canárias, entre outros.
Já a "E Esporádica" ocorre sobretudo entre Maio e Julho (embora possa acontecer noutros meses) e permite às ondas VHF sofrerem reflexão na ionosfera, permitindo a captação de rádios FM a milhares de km do emissor. Quando ocorre uma abertura, a propagação ionosférica começa por afectar as frequências mais baixas, podendo, nalguns casos, "subir" no espectro até às frequências mais altas da faixa de FM. Quando a FCC mudou a faixa de rádio FM para os 88,1 - 107,9 MHz, o objectivo era minimizar o efeito dos saltos na ionosfera, mas também de outros fenómenos de propagação que ocorrem mais raramente mas que também permitem a captação de estações distantes. De referir que, ao contrário da propagação troposférica, que muitas vezes oferece sinais estáveis e fortes, audíveis durante horas, a propagação ionosférica oferece sinais instáveis, sujeitos a desvanecimento rápido, comportando-se quase como se fossem sinais de estações em Onda Curta e que geralmente não duram muito tempo (de alguns segundos a alguns minutos). Dito isto, importa mencionar que existem outros modos de propagação que permitem a escuta de estações a grandes distância, mas que são mais raros e que não referi para evitar maior confusão.
2) O DAB/ DAB+ é imune a estes e outros fenómenos de propagação? Não, e a razão é muito simples: os fenómenos não dependem da tecnologia analógica ou digital, dependem da Física (propagação de ondas). Ainda que seja muito raro que a propagação ionosférica atinja a faixa de frequências usadas pelo DAB(+), a condução troposférica pode provocar fortes interferências que tornam inviável, por minutos ou até por horas, a escuta de rádio digital. Da mesma forma que a propagação troposférica já deixou milhares de portugueses sem poderem ver, por minutos ou até por horas, a TDT. Nem o melhor rádio DAB do mundo faz milagres quando o que entra na antena são bits com uma elevada taxa de erros devido a interferências destrutivas entre emissores mais próximos e emissores distantes. Vamos a um exemplo: imagine que o João estava em Santarém a ouvir a Smooth FM em DAB, graças ao facto de a antena de recepção estar a captar o sinal do emissor DAB de Santarém, complementado com o sinal DAB de Montejunto. Suponha que a Smooth FM também emitia no mesmo bloco (frequência) DAB a partir da Lousã e que, numa noite de Verão com propagação muito forte, o sinal da Lousã chegava com sinal forte ao seu rádio. Devido ao chamado intervalo de guarda, se dois sinais de emissores situados a menos de 60 km (valor aproximado) do nosso local chegarem com sinal forte ao nosso receptor, os dados de um emissor complementam os dados do segundo emissor, como se possem duas peças contíguas de um puzzle. Já se um emissor mais longínquo for captado juntamente com o sinal de um emissor próximo, há perda de sincronização, já que o sinal longínquo chega atrasado porque tem de percorrer uma distância maior até chegar à nossa antena. A melhor analogia é imaginar a "orquestra Smooth FM" onde os "músicos" Santarém e Montejunto tocam a mesma música de forma sincronizada, sem que a audiência note qualquer problema na interpretação da música. Chega a "artista" Serra da Lousã e começa a tocar com alguns segundos de atraso em relação aos colegas. Não é difícil imaginar que a audiência vai notar rapidamente que a "orquestra" perdeu a sincronização entre os músicos intervenientes, fazendo com que a música soe muito mal. Deixando de lado as analogias, e no caso do DAB, se um sinal atrasado para além da tolerância permitida pelo sistema de correção de erros, é misturado com um sinal que chega a tempo,ocorrem erros na descodificação. No pior dos casos, a Smooth FM ouvir-se-ia aos soluços, mais ou menos como se fosse um CD riscado.