Como ouvinte da RR, mesmo não sendo crente, o problema que identifico é uma falta de rumo para a RR que seja coerente e compreensível pelo público. O andar à pesca à linha de receitas resulta em algo que no médio prazo descaracteriza o projeto.
O que está a acontecer com o desporto em antena é surreal. As edições da Bola Branca (talvez a maior marca da RR) foram reduzidas aos micro 7m e acabou-se com informação desportiva no ar depois das 18h:22m. Apesar disso e salvo uma ou outra honrosa e pontual exceção, como o podcast em torno do mundial de futebol feminino, a RR online não apostou em conteúdos regulares que “compensassem” a perda de espaço do desporto em antena e que permitissem potenciar os bons recursos humanos que ainda possuem, podendo até fugir da “ditadura” do futebol.
No que toca às transmissões do futebol o desnorte é total e o desbaratar de ouvintes bem acelerado, se não vejamos a última semana e meia: a emissão tem programação regular e os jogos da seleção nacional vão para o site, mas nas mesmas circunstâncias o jogo do SCP passa no ar; pelo meio, os jogos que envolveram FCP e SLB também se ficaram pelo site, enquanto existia emissão especial de um festival de música. Os jogos que só passam no site só são referidos em antena nos noticiários de hora a hora, independentemente do seu desenrolar e nem sequer se deixa a informação (no espaço musical) que o jogo tem relato no site. Os ouvintes que iam em busca do relato RR apanham música umas vezes e outras lá acertam numa transmissão desportiva, só que aqueles que procuram “música para sentir” correm o risco de levar com três horas de bola… Esta incerteza não fideliza nenhum tipo de auditório. A juntar a tudo isto, as transmissões no site são réplicas perfeitas do que se faz em antena, não representando qualquer redução de despesa e com a agravante de nem sequer publicidade passarem.
Numa lógica de redução do tempo de palavra em antena, confesso que perceberia melhor que no FM passasse apenas o jogo propriamente dito e antevisão e balanço fossem remetidos para o online, podendo até existir mais liberdade/tempo para inovar nesses períodos.
O mesmo cenário ocorre na informação, onde apesar dos cortes ainda há uma equipa bem capaz de trabalhar muito e bem, como se ouviu na JMJ. Evidentemente que a JMJ foi um evento excecional e a redação não aguenta ritmo sequer aproximado, mas também ficou bem claro que o potencial da informação da RR está subaproveitado. Com algum grau de exagero, atrevo-me a dizer que, fora dos períodos de ponta e das noites, consigo ficar mais bem informado na Comercial e na M80 do que na RR.
A RR só no que ao peso da programação religiosa diz respeito tem conseguido manter uma linha coerente, que os ouvintes conseguem identificar facilmente e que mesmo assim não afasta ostensivamente ouvintes não católicos. Creio que isto demonstra que uma presença contínua, coerente, estruturada e fundada em ideias claras é caminho bem mais direto para a sustentabilidade do que a inconstância permanente da programação. Essa presença até pode ser pelo caminho da música, mas então que se assuma isso e deixem de tentar ser/fazer aquilo que já não são/querem.