Como define então o posicionamento, por exemplo, dos vários canais da BBC Rádio?
Deixar medrar o duopólio levou a que outras rádios generalistas tendencialmente de palavra tentassem replicar o modelo com consequências que todos estamos a ver...
Duas rádios de música a metro com quase 40% de audiência mostram o nosso atraso e que nos aproxima cada vez mais da América Latina do que dos países da Europa civilizada.
Absolutamente brutal.
Mas o que é que defende? Que se feche a RFM e a Comercial, levando as pessoas a procurar alternativa musical no digital? Ou por a Antena 1 a tocar 10 seguidas que repetem a cada 2h? Vamos lá ver, em todos os países existem rádios musicais, isso é um facto, o nosso modelo híbrido de Antena 1 e RR, em que uma puxa mais para um lado, outra para outro, é que é uma especificidade portuguesa. TSF e OBSRVDOR passarem música, é só absurdo, mas vamos fingir que é só de madrugada, para encher pneus.
Olhemos para os nossos vizinhos do lado. Aliás, vamos, por simplificação académica pensar que só existe o modelo A, o português, e o modelo B, o espanhol, porque se estivéssemos como eles, já era muito bom. Se amanhã a ERC dissesse ao quarteto, "os senhores estão proibidos de passar música" e até dessem a TSF e Observador uma rede nacional, o que iria acontecer? A resposta é, 40% do mercado ia continuar a estar na RFM e na Comercial, possivelmente até mais, subamos para 45%. Adicionemos aqui uma variável: os senhores do quarteto triplicam o orçamento (e ainda assim ficava abaixo das espanholas, e vamos ignorar que a TSF recebeu hoje os salários de dezembro). Até digo mais, multipliquemos por 10 o orçamento atual. Não temos forma de o comprovar em mundo real, mas vai uma aposta? As audiências não seria muito diferentes do que são hoje. Porque também há um problema do lado da procura. Fomos educados a pensar que rádio = música. Rádio pode ser música, sem dúvida que o é, mas o que a diferencia é o poder da palavra. Por isso se vir a minha assinatura, vê quem vem em primeiro lugar. Devemo-nos questionar porque motivo os espanhóis preferem primeiramente ouvir a SER, depois a COPE e só finalmente a LOS40. E na quarta posição entra a Ondacero, só depois a Cadena 100. Acha que, alguma vez, no espaço de 5 anos, tenha o orçamento que tiver, vai conseguir fazer com que as pessoas prefiram tempo de informação a música? Nem que tivesse o melhor produto do mundo, ou que a BBC se mudasse de armas e bagagens para Portugal. Se subiriam? Talvez, mas nunca para alcançar sequer dois dígitos. E das quatro, a única que pode almejar isso é a RR, precisamente a que cai mais para o lado musical.
Não lhe sei dar uma razão objetiva para o nosso mercado ser assim. Provavelmente há várias, desde logo sermos um país ainda fortemente marcado por uma velha máxima do Estado Novo de que "politica não se discute" (exceto aquela que são tricas partidárias) o que leva a que as pessoas se afastem de pensar, a estrutura empresarial dos nossos grupos de media, mas também dos anunciantes, a excessiva centralização do país que não avança para uma regionalização inteligente, o desastre que foi o espartilhar do éter por rádios locais que não servem absolutamente necessidade nenhuma, em lugar de seguir o modelo espanhol de ter uma rádio regional forte, etc, etc. O que se deve assegurar é que não é por não existir procura que devemos liquidar a oferta. Isso é que me deixa com os cabelos em pé. Por isso defendi e continuarei a defender que se não existir uma solução viável para a TSF em mercado, tem de caber ao Estado assegurar esse papel. Isso é serviço público, é não deixar para trás, só porque não é lucrativo, mas tendo bem presente qual é o quarto poder, aquele que tem uma importância vital a travar os abusos dos três primeiros. E aí, tem o Atento defendido e bem, não significa não lutar com unhas e dentes para chegar a mais pessoas e cativar para novos conteúdos, refugiando-se no nicho e no chavão do "serviço público". As audiências interessam porque é sinal que o produto está a ser consumido, mas não podem nunca ser medida da qualidade do mesmo.
Terminando o post mais a roçar o académico que aqui escrevi, a latinização do nosso consumo não advém somente da oferta (problemas da RTP, duopólio, locais, estagnação tecnológica, etc). Há, logicamente, razões que estão do lado da procura, e penso que essas são necessárias de documentar e elencar mais eficazmente. Sem esse lado da equação, não vamos desatar este nó, por mais voltas que demos do outro.