"O meu reino não é deste mundo", é a frase de Jesus Cristo que gosto muito de citar, para poder escrever com total liberdade aqui. Como eu não tenho interesses nenhuns no meio, não tenho formação na área, e sou assalariado do Estado, mas numa área totalmente distinta da Comunicação Social, vou-me dar à liberdade de escrever duas ou três linhas sobre este assunto:
"Vissem a cara de pânico da RR e da Bauer em reuniões com o regulador a desvalorizar o DAB+ para que a tecnologia não avance e vocês teriam outra opinião.". Por este motivo e outros, é que a nossa RTP, à semelhança da congénere espanhola RTVE, deveria assumir a iniciativa e avançar com os testes DAB+, incluindo num MUX todos os seus atuais canais, e esperar que os outros Grupos roessem as unhas de inveja e começassem a perder ouvintes, passo a passo, para uma melhor tecnologia! Eu seria um deles...
O Modernices sabe, de certeza, muito melhor do que eu, quem em Portugal quer avançar com o DAB+. Eu não preciso de estar nessas reuniões para imaginar o susto, basta-me ler as entrevistas que as partes vão dando, que, francamente, me parecem, muitas vezes, mais do domínio da ficção científica do que da boa gestão, para perceber minimamente como anda o setor em Portugal. Pelo meio, a gestão da RTP, com pérolas como "a rádio sem botões", também vai contribuindo para este atraso de vida em que estamos, face a potências económicas como o Quénia ou Marrocos.
Se da Bauer que está confortavelmente na liderança, em todos os segmentos, que é uma empresa privada em sentido pleno e que se limita a passar música e a pouco mais, ainda posso esperar uma atitude totalmente passiva, da R/COM que está há anos a perder sucessivamente, e que, tal como a RTP, tem estatuto de utilidade pública, que lhe deram duas redes nacionais de mão beijada, não o consigo aceitar.
Eu não gosto de falar em duopólio, porque não quero acreditar que exista concertação de resultados, mas pode ser só a minha crença intrínseca na bondade humana, mas que há uma postura de incumbente, totalmente avessa ao risco e, porque não dizê-lo, à maximização de resultados a longo prazo, porque o DAB+ permite poupanças energéticas significativas, lá isso há. Em suma, há uma má gestão quase a lembrar a que tantas vezes associamos ao setor público, mas que é muito típica em Portugal: faz-se assim, porque sempre se faz assim.
Porque é que a RTP não avança? Para mim, isso é óbvio. Falta dinheiro, além de que, não excluo que existam lobistas junto da Tutela (não tenho informações, suponho, note-se).
Agora, eu não acho que seja, propriamente, com medo da concorrência que não se avança. Muito menos, da concorrência da RTP. Como não me canso de dizer aqui, por melhor que seja a programação da RTP, não nos podemos esquecer do que "é disto que o meu povo gosta" em Portugal. E não é de informação, nem de rádios musicais premmium, ao estilo Antena 2, Smooth ou, até de certa forma, da Antena 3. Portanto, no registo piadola simples, e música a metro ligeira, não vejo que na próxima década haja alguém que consiga ousar destronar COMRCIAL e RFM do lugar que ocupam. Mesmo que, no limite do absurdo, uma OBSRVDOR, TSF e RTP Rádios entrem no DAB +, todas juntas, devem fazer 25% da audiência consolidada desses dois canais, e ainda temos os outros. Por melhor que a qualidade sonora seja, ninguém vai trocar o Café da Manhã, pelo Programa da Manhã só porque o áudio é muito bom.
Não me acredito, muito honestamente, que possam existir grandes flutuações na distribuição de audiência por tipos de produtos. A quota das CHR MEGAHITS e CIDADE FM deve andar no intervalo 5 a 8%, das HOT AC RFM e COMRCIAL nos 35% a 42% e de AC entre os 15% e os 18%. Se, por simplificação, fizermos as contas ao ponto médio, temos cerca de 65% da audiência de rádio em Portugal nestes produtos, numa comparação com votos para umas legislativas, era quase uma maioria constitucional. Não é possível pensarmos que com o DAB+ vamos ter a RTP, a TSF e a OBSRVDOR a crescer para, juntas, alcançarem 30%. Se chegarem aos 15%, seria ótimo, mas é um teto já muito forçado.
Então, com este cenário de fundo, porque é que o DAB+ não avança?
1. As privadas, mais do que perderem entre nada a, diria, 5% de quota de mercado, querem, isso sim, um subsídio para implementar o DAB+. Na boa cultura do empresariado português de privatize-se os lucros e nacionalize-se os prejuízos, há que aguardar que Bruxelas force a mudança para que o Governo, seja ele qual for na altura, vá apresentar uma reprogramação do quadro comunitário, e permita que os investimentos sejam feitos com dinheiros públicos (sim, mesmo o dinheiro de Bruxelas é público, dos contribuintes da UE). Ou, em alternativa, a RTP que vá avançando com o custo pesado e, no final, eles vão lá e pagam a parte mais barata, ou, no limite, até pagam uma renda abaixo do preço de custo à RTP. A situação financeira das rádios portuguesas é fraca, não me chocaria que pudesse existir alguma solução que permita mais igualdade no mercado, isto é, existir uma entidade que não atue em mercado que monte e mantenha a infraestrutura, a que os operadores paguem uma renda pela utilização.
2. A RTP vive no universo Estatal. É para daqui a cem anos, o que podes fazer hoje. Declarações de Governantes e recomendações ao Governo do Parlamento, e, pasme-se, até Despachos, Decretos-Lei e mesmo Lei, são letra morta, para enfeitar jornais ou o Diário da República, consoante o caso. Além disso, padece do mesmo problema: a CAV é pequenina, mal chega para manter o FM em condições devidas (eu já agradecia menos barulho de ventoinha em 96.7, bem notório nos noticiários, em que é mesmo só voz).
3. Demais privadas: a TSF passa as dificuldades que sabemos, o grupo Montez demora dois meses a por um emissor a trabalhar bem e outro a 50%, depois de um temporal, e este seria o grupo que mais poderia ambicionar disputar com as incumbentes.
Paradoxalmente, e até porque estamos no tópico da 3, esta estação, em teoria, seria a que mais teria, a meu ver, a ganhar com o DAB+. Agora, com esta playlist de nicho, sem conseguir ir mais além, sempre que tenta, há um recuo rápido, assim não há tecnologia que salve, como não há locutores, por mais excecionais que sejam, que se salvem.
Dito isto, também começo a ter cada vez menos certezas sobre os estudos de audiências em Portugal. Não será por acaso que a própria R/Com também se está a virar para os serviços da Musicdatak e da Mediadatak. Não sendo, obviamente, substitutos do Bareme, podem fornecer informações complementares relevantes.