«Já corremos de mãos dadas a mais secreta noite do Mundo. Já subimos ao alto da montanha. Sabemos todos os nomes do medo e da alegria. Em ti me transcendo. Podia morrer nos teus olhos. Se nestes dias de cigarras doidas, perderes de vista o meu coração vagabundo… dá-me um sinal! Abraçar-nos-emos de novo antes dos rigorosos frios! De novo, o grande sobressalto, o formidável estremecimento dos instantes felizes! Podia morrer nos teus olhos, Amada Rádio!»
2008/2009
As hormonas saltitantes exponenciavam toda a sua intensidade nas salientes espinhas na cara de um adolescente sedento de Mundo, mesmo quando o Porto tivesse sido provavelmente o lugar mais longínquo que esse jovem tinha visitado.
A rádio sempre fez parte da minha vida, mesmo sem sabendo que ela seria uma das minhas grandes paixões. Naquela altura, aos 14 anos, estava muito acostumado a escutar a Cidade FM e era grande parte da sua playlist que ornamentava um leitor .mp3 Sony Walkman que levava para a escola. Contudo, estava na altura de diversificar e me despertar para outras experiências sensoriais. Esse despertar, em muito se deve ao facto de ter migrado, por mera recomendação de um conhecido, para a Antena 3!
E a janela para um Mundo Novo se abriu!
Desde das manhãs com o Nuno Markl, às entrevistas do Nuno e Nando, passando pela culta e duradoura Prova Oral, foi nessa estação de rádio que travei, pela primeira vez, conhecimento com realidades que não conseguia senti-las num Ribatejo mais distante dos centros nevrálgicos do país e da Europa.
Musicalmente falando, foi na Antena 3 que alarguei o leque das minhas escolhas, leque esse que abri por completo quando, em 2012, tive a oportunidade de estudar e viver em Lisboa, numa época conturbada pelo resgate financeiro da troika, mas também rica por ter sido o início de algo verdadeiramente revolucionário no país: uma nova vaga de abertura ao que vinha de fora, mas respeitando e olhando cada vez mais para as nossas raízes culturais, deitando por terra aquele provincianismo bacoco «de que o que é de fora é que é bom!».
Tantas bandas, tantos concertos, tantas dicas culturais escutei na Antena 3, sempre naquela velha máxima de que «a primeira vez, é sempre na 3!».
Podia enunciar várias bandas, vários programas, vários filmes e espectáculos que consumi avidamente e que tiveram a chancela do «canal jovem da RTP».
Mas para que a lista não seja extensa e, «ousando roubar» a lírica poética do caro joao_s, destaco três ou quatro momentos que me marcaram.
---/APONTAMENTOS/---
PROVA ORAL (Fernando Alvim) – Emissão Especial dos 15 Anos da Antena 3 (2009). [102.2 MHz – Lousã]: A Prova Oral, dada a sua longevidade, pode-se considerar um encontro, meio clandestino, entre amigos que, diariamente, podem conviver entre si e tendo o Fernando Alvim como cicerone e dono da casa. Talvez a emissão mais longínqua que tenho memória praticamente intacta enquanto ouvinte assíduo do programa deverá ser a Emissão Especial dos 15 Anos da Antena 3. Era de Segunda a Quinta-feira (Sexta, era dia de «Conversas de Raparigas» com a Mónica Mendes). A PO sempre foi bem ornamentada com os jingles compostos pelo Jimba e por Manuel João Vieira, ainda estávamos a poucos anos do advento dos smartphones e mais longe estávamos da entrada em cena do Whatsapp. A interacção dos ouvintes era feita, via o blogspot do programa ou através de chamada telefónica para o 800 25 33 33 (abençoados jingles que ainda hoje recordo o número). Nesta emissão em específico, co-apresentada pela Cátia Simão, foi feita uma votação para os 15 melhores álbuns portugueses que a estação passou, tendo ganho «O Monstro Precisa de Amigos» dos Ornatos Violeta (1999). Ora, mesmo não tendo memória do seu lançamento, esse álbum marcou-me imenso nessa precisa altura pois surgiu um movimento na minha geração, a qual cresceu a escutá-lo na adaptação da SIC «Uma Aventura» e que, graças à prestação num talent show, chegou a franjas mais jovens. Lembro-me que, após esse programa, fui sacar grande parte desses álbuns (eu sei que é crime, mas já prescreveu) e conheci coisas que, dada a tenra idade, nunca tivera ouvido.
CANÇÕES COM HISTÓRIA (Pedro Costa e José Paulo Alcobia) – Entre 2008/2009 e 2015 [102.2 MHz – Lousã/100.3 MHz Monsanto (Lisboa)] – Se hoje malparo em achar-me um melómano, com um particular gosto pelas estórias por detrás de cada disco, de cada canção, sem dúvida que devo muito ao mítico Canções Com História do Pedro Costa e do desaparecido José Paulo Alcobia. Era uma rubrica que passava nas tardes, sendo estas, inicialmente compostas pela Mónica Mendes e pelo Ricardo Sérgio, depois pela Mónica Mendes a solo e, para o seu final, pela Ana Galvão. Tal como o nome indica, a rubrica contava, de forma sucinta, as estórias por detrás da canção. Tinha o condão de ser lúdica, nada aborrecida e que, tanto rebuscava temas mais épicos e antigos como o «God Only Knows» dos Beach Boys, mais alternativos «tipo» «Radio Free Europe» dos eternos R.E.M., ou os temas que os adolescentes da época escutavam, como o «Welcome to The Black Parade» dos My Chemical Romance.
É uma fonte inesgotável de conhecimento que, volta e meia, vou recordar na RTP Play.
https://www.rtp.pt/play/p372/e208770/cancoes-com-historiaMANHÃS DA 3 (Diogo Beja, Joana Marques, Luís Franco-Bastos, Serginho, Jorge Botas e Daniel Leitão) – Entre 2012 e 2015 [100.3 MHz Monsanto (Lisboa)] – Não era muito comum um universitário acordar ao som do rádio e, em especial a Antena 3! Mas era assim muitos dos meus dias. Podia escrever bastante sobre esta fase do programa matutino da estação mas, sem desprimor aos que lhe sucederam, para mim, foi o melhor programa que escutei em quase 25 anos de memórias enquanto ouvinte de rádio. Tinha doses cavalares de humor, sem ter aquele riso enlatado e falso. Tinha, para o meu gosto, a melhor música do éter e um grande comandante na emissão. Se podemos chamar pretensioso o antecessor The Diogo Beja Show (2010/2012), o trabalho de casa foi feito e entraram em cena os, até então desconhecidos para mim, Joana Marques, Daniel Leitão e Serginho para as manhãs, aliando o humor caustico das imitações exímias do Luís Franco-Bastos. De facto, as manhãs eram «Outra Coisa» e voavam a uma velocidade tremenda. Além disso, haviam dicas de cinema com o Mário Augusto, aprendíamos a não dar «Pontapés na Gramática» com a Prof.a Sandra Duarte Tavares, era comum escutarmos música ao vivo nos estúdios e ainda tínhamos direito a apanhar com as tricas do Serginho, o Eurodance do «Espaço 1999» e o heavy metal e bom humor a relatar o trânsito do produtor Jorge Botas.
As Manhãs da 3 eram uma verdadeira equipa que nos dava, não só bom humor, como cultura e dicas úteis, tendo sido tão relevante que, na altura, conseguiu, por mais que uma vez, encher o Coliseu dos Recreios num espectáculo ao vivo (impensável, na 3 de hoje).
Destaco a primeira vez que escutei, pela voz do Diogo Beja, o tema «Perfect Life» do Moby. Era 2013, estava a escutar a emissão no meu telemóvel enquanto viajava num comboio regional em direcção à faculdade. Aquele nascer de um Sol de Inverno sobre a névoa que cobria os sapais da Azambuja teve mais enquanto. Mil vezes obrigado por isso!
E também recordo a charada que o LFB fez ao ligar para o meu clube, fazendo-se passar pelo meu presidente da época. xD
https://www.youtube.com/watch?v=vbx9kBzdQ38ANA GALVÃO – Entre 2008/2009 e 2017 [102.2 MHz – Lousã/100.3 MHz Monsanto (Lisboa)] – Em qualquer projecto que ela tenha estado naquela estação, seja nas Manhãs 2, seja nas Tardes, a apresentar o Índice A3.30 com o Augusto Seabra ou as Donas da Casa com a Joana Marques, é, a par do Fernando Alvim, a minha maior referência na rádio! Foi com ela, em 2008, que ouvi falar pela primeira vez (como é apanágio) das «novas» redes sociais Facebook e Twitter. Foi com ela que escutei pela primeira vez os Forest The People, os MGMT, os M83, os Florence + The Machine, a emmy Curl, os Pontos Negros, os doismileoito, os Diabo na Cruz e mais tanta, mas tanta coisa boa…
Foi pela voz da Ana Galvão que soube do falecimento do João Ribas, precisamente quando estava a passar ao lado do local onde o vocalista dos Censurados, Kú de Judas e Tara Perdida tinha falecido. Mas também foi pela voz dela que tive acesso à cobertura do boom dos festivais de Verão em Portugal.
E, mesmo após a sua saída, foi graças a ela que deixei de ver a Rádio Renascença como um posto para «velhos e beatos»!
ANDRÉ SANTOS – Manhãs 2 (11h/15h) – Pandemia SARS-CoV-2 [antena3.rtp.pt] – Mesmo estando, a maioria de nós, metidos numa depressão colectiva, resultado de uma vida ermita a que fomos submetidos, escutar o André Santos era um bálsamo. Acredito que não foram nada fácil aqueles tempos para o pessoal da rádio. Era preciso coragem, após os fatídicos noticiários em simultâneo com a Antena 1, tentarem animar a malta, sem perderem o foco nas informações mais importantes a dar ao seu auditório. E o André Santos foi uma valorosa companhia que alegrava aqueles dias em que a esperança no futuro se esvanecia.
ESPECIAIS ANTENA 3 – 2015 até à actualidade [102.2 MHz – Lousã/100.3 MHz Monsanto (Lisboa)] – É verdade que sou um crítico do rumo seguido pela estação em 2015, mas sou o primeiro a elogiar quando a «minha rádio» cumpre os requisitos de serviço público. Graças aos Especiais Antena 3, sobre a égide de Nuno Reis, Henrique Amaro e Luís Oliveira, que pude mergulhar sobre movimentos alternativos que marcaram a nossa contemporaneidade.
Destaco o «Trip Hop: de Bristol para o mundo». O downtempo psicadélico de Bristol é uma paixão já de jovem adulto e que foi aqui muito bem retractada na voz de Nuno Galopim e Isilda Sanches.
https://www.rtp.pt/play/p2362/e431201/especial-a3Hoje cumpre-se o 30.º aniversário daquela que, pegando nas palavras iniciais do Mestre Fernando Alves, foi e, mesmo afastando-me esporadicamente dela, continua a ser o principal veículo para que possa escrever a plenos dedos minha «Amada Rádio»!
1994 é um ano importante para mim. Tal como a Antena 3, a minha vida também iniciou no final desse ano já longínquo!
Mesmo estando meio-afastado, nunca me esqueço de ti!
Deixo aqui uma fotografia roubada da página no Instagram de um dos movimentos mais belos que presenciei em rádio: o Toca a Todos. Baseado num evento anual da holandesa NPO 3, em 2014 foi possível, durante 73 horas, assistir a Ana Galvão, a Joana Marques e o Diogo Beja a fazerem uma emissão em prol da angariação de fundos para o combate à Violência Doméstica. Ainda chegou a ser anunciado, pela voz do Rui Pêgo, o seu retorno em 2015, tendo a pobreza infantil como pano de fundo. Talvez um dia regresse!
Já eu, posso dizer com todo o orgulho que eu estive lá!
https://www.instagram.com/tocaatodos/p/wKC-P1px9G/Parabéns e obrigado por tudo o que me deste (e ainda dás)!