Muito honestamente, questiono a pertinência desta mudança meramente estética. Qual o motivo? Qual a necessidade?
Para além de todo o trabalho e dinheiro que se irá dispender a mudar microfones, decorações de estúdios, etc..
Enfim, estamos num país onde se valoriza mais o aspecto em detrimento do conteúdo...
Entretanto, parece que saiu um artigo/tomada de posição por parte dos jornalistas da RTP - Rádio na edição de hoje (26/3) da revista "Visão" alusivo ao assunto...
"Chegamos com más notícias.
Não é incomum no nosso ramo, mas desta vez a notícia são os jornalistas. Da RTP mas, particularmente, da rádio pública. E somos muitas rádios públicas: Antena 1, Antena 2, Antena 3, RDP Internacional, RDP África.
Estes são os nomes pelos quais todos nos conhecem há décadas. São os nomes que se escutam nas frequências de um rádio velhinho ou que se leem nos ecrãs dos carros modernos. É como se vê no telemóvel, no computador, ou como se ouve dizer numa conversa qualquer.
No dia 30 de março, deixará de ser assim. No rádio vão ouvir "RTP Antena 1" (ou 2 ou 3, mas sempre com o mesmo prefácio). Os portugueses no estrangeiro vão ouvir "RTP Mundo" em vez de "RDP Internacional". A RDP África passa a ter o mesmo nome do canal de televisão: RTP África.
O nome "RTP" não só vem primeiro, como também vem em letras garrafais, para tornar os nomes das rádios numa espécie de rodapé.
A questão é mais simbólica do que semântica ou visual. Despem-nos, cada vez mais ao longo dos anos, e agora vêm vestir-nos com uma marca que se associa primeiro, e sobretudo, à televisão. Passamos a parecer bem vestidos, talvez mais apresentáveis e modernos, mas na prática continuaremos a ser uma manta de retalhos.
No dia 30 de março mudam-se também as "esponjas" dos microfones, que passarão a ser todas iguais, azuis, com o logótipo da RTP, e uma pequena barra ao fundo, impossível de distinguir a mais de um palmo de distância, a identificar cada uma das rádios ou canais de televisão. O azul "da televisão" substitui o vermelho, o roxo, o amarelo e o laranja das rádios.
Conhecemos os argumentos para a uniformização da marca. Internamente, explicam-nos que se deve à necessidade de todos perceberem que há uma só RTP, que é coesa e unida, e que junta é mais forte. Promover a marca. Fortalecer a marca. Uma espécie de mantra. Será inofensivo? Não acreditamos. É que ao mesmo tempo que nos dizem que é só um nome, uma esponja, uma imagem, etc., também nos vão dizendo que temos de nos "adaptar", "aproximar", já que "fundir" é palavra proibida, mas parece estar sempre debaixo da língua.
Dizem-nos que, nesta empresa, não há jornalistas da rádio. Há jornalistas da RTP. Recusamos que assim seja.
É que sabemos que somos jornalistas de rádio em momentos como o apagão de 28 de abril do ano passado. Sabemos que somos jornalistas de rádio quando os incêndios chegam, todos os verões, e se ligam os rádios a pilhas porque falta a eletricidade. Sabemos que somos jornalistas de rádio quando a tempestade Kristin destrói tudo, e as tempestades seguintes, e as que virão depois. Sabemos por que motivo um kit de emergência deve incluir um rádio a pilhas. Num incêndio, num terramoto, num temporal, numa catástrofe, sabemos que somos jornalistas de Rádio.
Sabemos que somos o meio mais resiliente de comunicação e sabemos, também, que temos o mundo aos nossos pés quando se lembram que somos precisos quando tudo o resto falha. Desdobram-se em elogios, em homenagens, faz-se uma grande festa porque a rádio não nos deixou mal. Mas a memória é quase tão curta como a manta.
O financiamento da RTP não beneficia a rádio e não lhe permite, demasiadas vezes, estar onde é precisa. Somos menos do que antes e continuaremos a diminuir de número no futuro, com mais saídas e muito menos entradas. Não podemos correr o risco de, em cima de tudo isto, permitirmos que se condicione mais o nosso trabalho.
Não sabemos se, sendo a partir de agora todos "jornalistas RTP", de microfone idêntico na mão, continuaremos a fazer o trabalho como até agora. Um segundo "jornalista RTP" tem direito a fazer uma segunda pergunta depois de um primeiro "jornalista RTP" fazer uma primeira?
Se "a RTP" aparece tantas vezes, dá-se razão àqueles que julgam que somos muitos, demasiados, a fazer o mesmo, à custa do "dinheiro dos contribuintes", como tantas vezes ouvimos. É propositado? É que não, não somos muitos, não somos demasiados, não fazemos todos o mesmo.
A explicação mais simples é que os canais de rádio e televisão não têm o mesmo auditório. Mas acrescentamos: a linguagem não é a mesma, os horários nobres não são os mesmos, o tempo e o prazo das notícias não é o mesmo.
Os "jornalistas RTP" - da rádio e televisão -, recusam-se, como ficou claro num plenário conjunto de jornalistas das duas redações, a "uniformizar-se" sem saber o que isso significa.
O novo grafismo, que é uma mudança de identidade, é um sintoma e um teste do que está para vir. Em 18 meses, em Lisboa, 130 de nós vão estar em simultâneo na "Casa das Notícias", um projeto das redações da televisão e multimédia, com novos estúdios e equipamentos, preparado para sinergias e outros mantras. Problema: o projeto até há bem pouco tempo não incluía a rádio. Porquê? A nossa convicção é que, pura e simplesmente, ninguém se lembrou de que também aqui estamos.
Desaparecemos… à vista de todos.
E não, a nós, jornalistas da rádio, ninguém nos perguntou nada. Sobre identidades gráficas ou casas de notícias. Bem sabemos que somos nós quem tem de fazer perguntas, mas desta vez é para reverter papéis: façam vocês, de nós, notícia.
Os membros eleitos do Conselho de Redação da Rádio
Alexandra Sofia Costa
Ana Isabel Costa
Camila Vidal
Cláudia Aguiar Rodrigues
Cláudia Martins
Gonçalo Costa Martins
João Couraceiro
Oriana Barcelos"