António Pedro entra a matar: a rádio portuguesa é fraca e a maioria dos colaboradores não reúne os mínimos olímpicos para estar em antena. Não há figuras relevantes e de proa. Há uma ou outra exceção rematou António Oedro, que trabalhou na rádio durante 25 anos.
Respeitando ao máximo a figura histórica de António Pedro (que não tive o gosto de escutar enquanto andava no éter), discordo da sua visão tão catastrofista.
Creio que a rádio tem gente de imensa qualidade, quer nas privadas, quer nas públicas. Temos dois camaradas de fórum jovens que se enquadram nesse perfil.
A questão não está na qualidade do comunicador, mas no produto que está fechado ao mesmismo e à inércia por questões meramente comerciais, enredados na ditadura das audiências.
Não creio que um Paulo Fragoso na RR goste de passar um playlist com cheiro a mofo ou o José Coimbra aprecie takes curtos previamente gravados.
Não acho que a Elsa Teixeira ou a Catarina Silva apreciem a ideia de que para se ser animador tem que ter um corpo bonito e milhares de seguidores no Instagram.
Não creio que o Júlio Heitor ache piada a uma parca redacção em rádio e a inúmeros simultâneos com a televisão.
Não creio que o Pedro Azevedo goste da ideia de não se relatar jogos das equipas portuguesas nas competições europeias ou do António Botelho fazer relatos pela televisão.
Não acho, como acontecia no passado não muito longínquo, que a Filomena Crespo ou o Augusto Fernandes gostassem de encher chouriços ao ditar as temperaturas actuais em Lx, Porto e Faro de 20 em 20 minutos, passando Diogo Piçarra e Bárbara Bandeira na emissão.
Não é por acaso que o programa mais escutado em Portugal está carregado de palavra e consegue encher o Pavilhão Atlântico para um concerto de gente desafinada a cantar.
A rádio, em especial a pública pela liberdade que a CAV lhe oferece, tem que arriscar. Tem que ir ao fim da rua, ao fim do mundo.
Tem que haver mais dias destes em que se respira a paixão da rádio.
Não há outro meio tão intimista e imediato como este.
Por fim, não não gostei muito das declarações do Nuno Reis, mas dado o histórico, nem creio que esteve mal.
Lamento profundamente que, na melhor fase em que escutei a Antena 1, o seu actual director saia e nisto dou razão ao Atento: a A1 a continuar assim arriscava-se a se colar à RR no 4.º lugar.
Talvez seria apostar mais em programas frescos e não em repetições e, sobretudo (visto que não há diferença ser o Diamantino José e o Nuno Soares na emissão), ir para o Grande Porto, para a Campanhã, para a Trindade ou para a Ribeira de Gaia fazer emissão. Tirar o enorme António Jorge do Monte da Virgem e fazer um Antena Aberta com problemas daquela região, como as obras da Linha Ruby, a palhaçada do Metrobus (o mesmo se aplica em Coimbra) e ir na ânsia de conquistar aquela audiência que falta para ultrapassar a actual RR que, por muito bons profissionais que tenham (e se os tem), é um projecto ideologicamente perdido, não servindo quem quer desporto, quem quer religião, quem quer palavra mais séria a horas decentes.
Com o Nuno Galopim, sobrinho de um Mestre a quem este país deve muito, sentia-se que o trabalho estava a ser feito.
Infelizmente creio que com o Reis, vamos voltar a uma Antena 1 mais sóbria que, espero eu, não seja cinzenta.
Longa vida à rádio pública!