Atento, eu concordo consigo, acho que a Antena 1 deve progressivamente abandonar o modelo de rádio que passa música. Acho que faz todo o sentido separar o que é palavra do que é musical.
Dito isto, não sou negacionista da evidência de que, em Portugal, há uma clara preferência pela música em lugar da palavra. Também, não nego, que há o efeito das rádios de palavra serem menos bem feitas que as musicais. Admito isso. Mas mesmo que pusesse a fazer rádio de palavra, vou usar um exemplo absurdo, o Cristiano Ronaldo, com as multidões que ele arrasta, ela não seria líder.
Não é tretas não, essa é a verdade, há de facto, uma diferença cultural na forma de consumir, que não consigo compreender porquê, sendo Portugal e Espanha dois países em que a diferença mais marcada que existe é um ser uma República, e outro uma Monarquia. E, realmente, passe a fronteia em Vilar Formoso e chegue a Cidade Rodrigo. Não encontra um estabelecimento comercial com Televisão, é tudo rádio. Até naqueles tascos dos velhotes, toca a RNE 1, a COPE ou a SER. Aqui, é CMTV ligada a toda a hora. Não obstante, ainda que não fosse líder de audiências, que não seria, poderia ambicionar chegar ao terceiro lugar, não só a Antena 1, mas também a RR, tinham obrigação de fazer mais e melhor e de superar a M80 que é um projeto datado e pouco ambicioso.
Que fique claro, as nossas musicais são muito mais interessantes, e talvez não fosse a questão das quotas, e ainda seriam mais. Aliás, há um qualquer efeito perverso, quando um melhor profissional prefere passar mais de 45 minutos de música sem parar do que estar a conversar com alguém, ou fazer boletins de 60 segundos em vez de 10 minutos, seguidos de 50 minutos de análise. O efeito chama-se, somente, capacidade de pagar bons salários. A TV em Portugal tirou grande parte do espaço à palavra na rádio. Eu vou dar uma opinião polémica, mas preferia acabar com a RTP3 e fazer um bom canal de rádio pública integralmente de palavra e informativo, até pelo facto de ser mais barato. Verdade seja dita, o que é que acrescenta a imagem nas estações de informação? Muito pouco, só no futebol e nas tragédias naturais.
Curiosamente, na Galiza, já noto os consumos mais similares aos dos portugueses. Mas também é engraçado, porque os galegos que vou conhecendo, ouvem muito as nossas duas musicais, mesmo que com esforço, porque a recepção, mesmo em Vigo, muitas vezes já não é a melhor. No bar da Escola de Economia da Universidade de Vigo há uma curiosidade interessante: sempre que lá vou, está a rodar a MegaHits. Como a Universidade fica no topo de um monte, a uma altitude de 500 metros, os emissores de Braga apanham-se com muita qualidade, mesmo num telemóvel.