No perfil de Facebook de João Gobern:
"No final desta semana, mudo de vida. Melhor dizendo: fecho um ciclo de 14 anos e 18 dias, interrompido apenas por quatro semanas, em Dezembro de 2017, por um luto carregado e ainda por resolver. Depois de quase nove anos de Hotel Babilónia, ao lado do Pedro Rolo Duarte, e mais de cinco de Encontros Imediatos, com a Margarida Pinto Correia, deixo o horário das dez ao meia-dia de sábado, na Antena 1.
Aceitar a total legitimidade desta decisão e acatar naturalmente a ordem recebida não significa, não implica estar de acordo. E não estou. Por um lado, vivendo muito o programa da generosa contribuição das convidadas e dos convidados, aplicado um critério de enorme diversidade e reconhecida exigência na escolha das vozes a ouvir, adaptando os registos das conversas de acordo com o perfil das visitas, creio que estávamos muito longe do esgotamento, do tédio, do impasse. As ideias de criar duas horas de respiração, num tempo cronometrado de voracidades e atropelos, e de trazer o país (ou partes do país, para ser rigoroso) para dentro da rádio, essas foram cumpridas sem mancha.
Por outro lado, sei que, numa estação em clara perda de reconhecimento, os Encontros Imediatos se mantiveram como uma das âncoras de boas audiências, no que toca aos fins-de-semana. Não vale como parâmetro primordial, mas ainda contará alguma coisa, acredito. Ainda assim, não foi possível descobrir, sequer, um horário alternativo para os Encontros.
Não será o momento, nem é seguramente o cenário, para debater os caminhos presentes do serviço público de rádio, e refiro-me apenas e naturalmente à Antena 1. De resto, fica-me a estranha sensação de que, por estes dias, a lealdade rigorosa (gostaria de ter contabilizado os convites e desafios que recusei, por entender que, mesmo no regime de recibo verde, sem exclusividades, não deveria dispersar-me por outras antenas), a disponibilidade total e o empenhamento profundo não são recompensados com algo que, salvo melhor juízo, se tornaria simples e, porventura, útil: ouvir as opiniões, as dúvidas, as ideias, as propostas, de quem se dedica à casa e à causa. Nesta fase, isso não acontece, mesmo a quem colabora sem interrupções há dúzia e meia de anos, como é o meu caso.
Não quero pensar que tal se deve à distância – vivo na Póvoa de Varzim, a 350 quilómetros do Bairro Alto –, às circunstâncias – não mantenho relações de proximidade com actuais ou passados ministros, secretários de Estado, decisores, “influencers” ou grupos organizados de pressão –, ou ao feitio – não alimento campanhas de auto-propaganda, não gosto que me fotografem, detesto selfies. Convenhamos: talvez sejam lacunas a mais no que se assemelha a um “caderno de encargos” para os dias “mediáticos” que vivemos.
Seja como for, vim hoje aqui, na falta de outra tribuna, por três razões. A primeira: agradecer aos que, durante tanto tempo, tiveram a amabilidade (ou a paciência…) de me ouvir, em muitas ocasiões com manifestações de agrado ou com críticas. Felizmente, foram mais aqueles do que estas, o que também é razão de orgulho e me leva a acreditar na benevolência de quem escuta.
A segunda: regozijar-me com as equipas com que trabalhei em ambos os capítulos deste percurso e sublinhar, na impossibilidade de o fazer individual e directamente, todas as ajudas que tive, anónimas ou nem por isso, na estação que me acolhe e fora dela.
A terceira: dizer-vos que, a partir de sábado, dia 25 de Março, estarei no horário das 15.00 às 16.00, ao sábado, sempre na Antena 1, para um programa musical chamado As Regras da Atração, que farei o melhor que souber e puder. Considerem-se convidados, desde já.
Só mais isto: quanto aos Encontros Imediatos, tendo em conta que o título e o projecto pertencem à equipa que os apresentou, dada a profusão de plataformas e de alternativas disponíveis, algumas delas simpáticas e atentas, é possível que a história não acabe aqui. De momento, faço algo que também me dá prazer: estudo o assunto e as hipóteses. Quem se quiser “despedir”, para já, pode fazê-lo este sábado – depois das dez – em que abrimos o microfone a 50 pessoas que, desinteressadamente mas com interesse para quem as seguiu, vieram ao(s) nosso(s) encontro(s)."