Sim. Eu fiz 228km para experienciar em (mais ou menos primeira mão, mas seguramente antes do comum dos mortais por cá) o novo centro emissor da RTVE em DAB+ para Santiago de Compostela. Curiosidade e ser techie por natureza contribuíram para essa vontade. 2h30 e umas quantas filas depois (porque eu saí à hora de ponta do Porto para cima), eis a 1a gravação em DAB+ posta neste fórum!
Aqui está o link:
https://vocaroo.com/1lpJTZJeLUVcE agora, contexto e um pouco de feedback na 1a pessoa, não apenas ideias, mas a prática.
A gravação começa apenas a 17km do centro de Santiago de Compostela - e isto porquê? Porque eu não estava a captar qualquer sinal antes disso em DAB+. Certo que a antena que uso para DAB+ é indoor e isso nunca ajudou nem no FM nem aqui a qualquer captação, mas a verdade é que não se capta nem chega rigorosamente nada antes disso. O emissor, no Monte Pedroso, não entra de todo - nem é entrar com dificuldades, é não entra, ponto, a sul de Parroquia de Calo, pelo menos neste rádio. Não parece emitir com 4.6 kW de EIRP, tem comportamento mais similar a 1000/1500w.
A inteligência artificial explicou me que há uma depressão para sul disso (e proximidade às rias) e que essa é a razão para não captar a sul disso. Fui pela AP-9, entre as principais AEs espanholas, portanto não foi o caminho que escolhi a razão para não captar.
Mesmo quando chega o sinal, ele a início chega em completo silêncio. Apenas chega a informação de canal típica do DAB+, não chega uma linha da emissão. Passam-se cerca de 2/3km sem qualquer sinal e apenas no ponto em que arranquei a gravação se começa a ouvir. Esperava que, similarmente ao que acontece com SD/HD num sinal típico de DVB-T e DVB-C, a emissão caísse graciosamente de qualidade ou fosse para Mono para manter a escuta em menores níveis de sinal. Não é o que acontece - é estéreo com qualidade ou nada.
Isto sendo dito, após boa experiência a escutar o El Sótano na Radio 3, tenho algumas coisas a indicar.
A qualidade de som é de facto excelente. Sei que isto é o operador público e que há países em que não ocorre de forma igual, mas a qualidade de som é excelente e objetivamente melhor que o FM, não apenas na representação da gama dinâmica, que parece menos limitada e mais livre, como também nos agudos, que vão claramente além de 15 kHz. Parecia estar a ouvir quase que um stream online, mas com melhor qualidade e maior presença no som.
Há também a vantagem de que não há, ao contrário do que acontece em cidades com o FM, quaisquer ruídos. Não há dropouts, não há "ruídos", não há idas a mono momentâneas, não há nada. É escuta continua, pura e em estéreo, moderna e urbana, e resiliente. Sem interferências, sem nada. Se há, há.
O facto da operação ser por muxes também facilita no sentido de que a pessoa deixa de pensar em frequências, e começa a pensar em canais. No meu caso não tenho opção manual sequer de sintonia no rádio em DAB+, por exemplo, mas nem preciso. É uma lógica diferente de coisas e uma lógica melhor nisso.
Agora, há vários problemas.
Eu sinceramente esperava que houvesse uma degradação graciosa de som/sinal quando estamos em zonas de sombra ou pior força de sinal, mas não é o que acontece - como ouvem na gravação, o sinal corta. Não mostra ruídos de som como poderia acontecer em momentos de falha noutras tecnologias (por exemplo na TV) mas vai com o som a zero, fica em silêncio. Se isso correspondesse a um momento em que o Mono caísse, tudo bem. Mas não. É estéreo total ou nada. E isto não me parece bem, porque em situações de catástrofe, de contingência, não podemos estar à espera nem contar que todos os emissores estejam a operar a 100% em todo o lugar.
Também pela natureza de como as redes FM estão planeadas em Portugal e em parte em Espanha, o DAB+ não vai servir indo tão simplesmente para as mesmas torres de FM e querendo emular a mesma cobertura de rede por arrasto. Não dá, não vai dar, não é assim que funciona o digital aqui. O ponto onde vi os cortes e a maneira como cortou deixou-me muito claro que, para a mesma cobertura de FM, serão precisos bastante mais emissores, porque há coisas que hoje são toleradas na rede de FM (cujo planeamento nos centros geográficos penso que já tenha muitos anos) que em DAB+ jamais dará para ficar assim.
Dando um exemplo muito concreto: a Lousã precisará de reforços na cidade de Coimbra, em Águeda, Tondela e na área entre Pombal e Leiria, porque nestas áreas todas existem baixas de sinal relevantes. E se em FM é tolerado um estéreo um pouco pior, um mono com ruídos pequenos, o DAB+ não vai tolerar nada disso por comparação - vai ter dropouts ou mesmo perdas completas de sinal nestas áreas por largos segundos a minutos. Simplesmente não vai dar, pelo menos em comparação às potências atuais. Atrevo-me a dizer que nem mesmo com as bateladas enormes de potência usadas na Lousã e noutros centros principais na década de 80/90 será dispensável haver reforços de cobertura, torres locais, com mais ou menos potência. Não dá, ponto. Mais vale pensar-se na Lousã com por exemplo 5 ou 10 kW e depois operar reforços em MFN nesses locais com algo tipo 200/500w para as redes que venham a ser criadas.
De igual forma, em Lisboa, se os emissores de Monsanto hoje chegam, não tão bem, a Cascais e Sintra, no cenário do DAB+ será obrigatório o reforço com centros emissores de serrania (em Sintra) e junto à costa (em Cascais/Estoril). Nenhuma potência baterá a orografia e o comportamento da geografia aqui e não pode haver a tentação de fazer SFNs nisso.
Do comportamento que vi, a minha estimativa é que serão necessários no mínimo mais 20 emissores que a contagem hoje existente nas redes nacionais para colmatar as falhas, se se pretender assegurar uma cobertura de território continental. Mesmo no litoral espero +7/8 emissores como microcobertura para se assegurar um contínuo, contado de Braga a Setúbal, onde está 80% da população. São números altos, mas necessários, se se quiser fazer mesmo a transição.
Ilhas? As locais perdiam-se em menos de nada na Madeira. Um Rádio Clube no Funchal vai precisar de reforços para o interior, no mínimo +2/3 de menor potência, umas micros, para assegurar sinais equivalentes ao que há hoje em FM.
A boa notícia é serem emissores de menor potência, mais baratos por arrasto, para equivaler. A má notícia é o gasto adicional a médio e longo prazo de manutenção quanto a isto, e isto, claro, se se quiser equivaler ao FM. Se não se quiser sinceramente vale tudo. Mas depois do que eu vi, vai ser importante. Ninguém vai transitar nem nenhum projeto vai querer ir para o DAB+ se depois 20/25% da área que hoje cobre estiver aos cortes. É isso que está em causa aqui.
E estes números não contam com qualquer emissor de recurso, que se tornam extremamente necessários em situações climatéricas de catástrofe. A vantagem é que, como o DAB+ teoricamente consome menos que o FM, também se torna mais fácil distribuir destes emissores com menores custos imediatos e de manutenção.
Agora, uma palavra para as locais.
O modelo atual? Esqueçam. É inviável para as locais com equivalência direta.
Esta ideia de cada concelho meter o seu emissor na sua elevação, melhor ou pior, e as redes que foram geradas a partir daí com coberturas nacionais a partir de emissores locais (SmoothFM, Mega Hits, Cidade FM, Batida FM, em parte a TSF, em parte a M80) é completamente inviável nos termos em que se encontra e é pior do que eu tinha antecipado - é que nem caso os emissores fiquem no local onde estão e sejam só convertidos, nem caso fossem agrupar para centros distritais e tivessem proteção e otimização distrital.
Uma frequência como os 92.8 da SmoothFM, que hoje se ouve com pipocas em Coimbra, que hoje tem várias zonas de sombra em que mantém um Mono sem ruído, que hoje se perde em Águeda, que hoje tem cortes a caminho da zona de Figueiró e estável estável é mesmo no eixo da A13 e para a vila, não se ouviria de todo em condições no DAB+ para o sinal que apresenta nem em Coimbra, nem em varias partes desse percurso. Ia haver várias idas a silêncio.
Mesmo no caso da Mega, se pensarmos na lógica atual de um emissor na capital de cada distrito, há zonas de transição que iriam sempre perder sinal, notavelmente a zona de Ovar e a zona de Águeda no eixo Porto - Coimbra.
No caso da CidadeFM há algumas baixas de sinal no percurso da A1 em que não chega bem nem Penacova nem Alcanena, chegam ambas com uns ruídos. Em FM tolera-se, vai-se ouvindo, com pipocas. Em DAB+ seriam vastas áreas aos 2 e aos 3km de cada vez sem som algum.
Quer isto dizer que devemos abandonar o DAB+ por completo como tecnologia? Não. Quer dizer que a coisa tem que ser trabalhada ao contrário.
E mais concretamente, quer dizer que é esta mesma Lei da Rádio, esta mesma organização de emissores, frequências e rádios, nacionais, "regionais" e locais, que está caduca e vai cair de velha. O DAB+ obriga a uma lógica de coberturas, potências e a uma incidência na importância da presença da torre emissora, tenha mais ou menos potência, que é completamente incompatível com a lógica atual de mercado, a lógica de atribuição das frequências diversas na rede, e atrevo me a dizer, na lógica de organização das transmissões por hertziana em FM, das nacionais às locais.
Não dá sequer para equivaler a lógica atual para DAB, tem que levar um trabalho completamente diferente de organização, quase do zero. E atrevo me a dizer que a lógica na qual os atuais operadores trabalham para as tais redes mistas com locais que falei acima vai toda pela janela com o DAB+ e deixa simplesmente de ser comercializável como está.
Mantenho que o DAB+ deve começar por Lisboa e Porto e pode ser por lá que ficará. Mas agora por razões diferentes. É que o investimento envolvido numa reconversão para DAB+, instalação de novos centros, vai ser materialmente significativo para o setor, e tudo isto enquanto se corre o risco (para os incumbentes) e se abre a oportunidade (para os novos entrantes) de significativamente mais capacidade disponível e de novos projetos poderem entrar que ameaçam a realidade dos atuais.
Mas deve existir como versão completa de substituição ao FM no médio longo prazo. Ou seja, com algo de por exemplo 4/5 redes nacionais, preferencialmente geridas por privados e preferencialmente não geridas pelos incumbentes; com várias redes de âmbito regional, apenas regional, não há escala para mais; e com a facilidade de abrir multiplexes, abrir novos centros, abrir novos emissores, sem depender de autorizações seculares da ERC e apenas sujeito a validação de espaço na ANACOM. Tem a figura de o poder substituir, reconheço, mas nunca antes de 2035 por cá, por múltiplas razões. E claro, o azar de uns será a sorte de outros.
É um mal necessário para quem está, e essencial para quem entra. É a maior alteração tecnológica na transmissão de rádio dos últimos 40 anos, e é uma alteração que tem que ser encarada de forma séria e trabalhada de forma séria. Não com anúncios de circunstância ao sabor do vento, mas com um planeamento, análise e execução robustas, para que se possa abrir espaço ao futuro que existe noutros países.
Há muito trabalho a fazer, mas vale a pena. Quem aproveitar aproveitará, quem não aproveitar vai ver o comboio a passar. Para os incumbentes é melhor garantir controlo, do que vê-lo depois retirado quanto à insistencia no FM. Que arrepiem caminho, porque a evolução nunca espera.
A quem espera por esporádicas aqui em Portugal: vai ser muito difícil da forma como o emissor está montado. Não esperem mais que um punhado de oportunidades (5/7/10) até Junho próximo. Será mais viável aguardar pela entrada ao serviço dos emissores a sul e aí passará a ser possível escutar em Valença, na A3, em partes de Ponte de Lima e em partes do Baixo Minho. E isto para já.