Autor Tópico: Fonética empregue nas rádios  (Lida 1825 vezes)

radiokilledtheMTVstar

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Fonética empregue nas rádios
« em: Junho 23, 2021, 11:25:39 pm »
Se um jovem quiser fazer rádio no Porto, que sugestão dá ao candidato?

É uma excelente questão. Eu sou do Porto, note-se, e basta fazer uma busca para compreender que as locais na AMP são pouquíssimas e as existentes fracas em termos de capacidade financeira. No tópico da Cidade FM já respondi a isso.  Quando digo que estas emissões locais são uma palhaçada é porque o são mesmo. Para isso, é preferível não desdobrar.

Eu por princípio em grupos de rádio, sou favorável a emissão nacional, mas a ERC deveria obrigar ao seguinte: tens alvará em Porto, Braga, Aveiro, Coimbra, Santarém e Lisboa. Tens de ter um animador por dia útil a fazer emissão a partir do distrito (até pode ser de casa), integrado no painel com colegas de Lisboa ou de outra cidade. Não há motivo para que, por exemplo, nas manhãs não tivesses um animador em Lisboa, outro no Porto e outro em Coimbra. Como se viu com a pandemia, com a divisão de estúdios, as coisas funcionam. Já ouvi o Daniel Fontoua numa Conferência a dizer que nunca compreendeu e continua sem compreender, porque não pode estar sentado na António Luís Gomes a fazer programa, sendo ele de Gaia e tendo o Grupo R/Com estúdios na cidade. Se calhar a Quinta do Bom Pastor dá uma capacidade extra de fazer rádio. percebe o meu ponto?

Sem dúvida, se até compreendo minimamente para um programa de conversa se fosse radialista de um programa de autor ou de playlist estaria sempre a pensar porque raio não poderia fazê-lo nos estúdios da minha cidade pelo menos de vez em quando. E não esquecer que, tal como muitos atores e apresentadores de TV, quem quer seguir rádio é obrigado ou tem mesmo formação para disfarçar o sotaque (e não estou só a falar do do Porto, como é óbvio). Uma das raras excepções é a Laura Ferreira da Cidade FM.
Quanto ao resto, confesso que a certa altura tive o sonho de seguir os rumos da rádio, nem que fosse para a produção, mas como não me via a fazer tanto esforço e ir para Lisboa arriscar tudo numa uma área tão instável por isso desisti rapidamente. Nem todos têm a sorte do Ricardo Lomar que sai da faculdade e passado 3 ou 4 anos é o dono das Manhãs da Nova Era  :D

Se todos discutíssem desta maneira a relação entre os animadores e o público as rádios jovens assim não seriam tão irrelevantes na animação onde a Mega e a Cidade continuam a soar muito a falso, e a Antena 3 não seguiria num rumo tão isolado e perigoso...
« Última modificação: Dezembro 27, 2023, 10:36:42 pm por AG »

Zeca 2021

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Se um jovem quiser fazer rádio no Porto, que sugestão dá ao candidato?

É uma excelente questão. Eu sou do Porto, note-se, e basta fazer uma busca para compreender que as locais na AMP são pouquíssimas e as existentes fracas em termos de capacidade financeira. No tópico da Cidade FM já respondi a isso.  Quando digo que estas emissões locais são uma palhaçada é porque o são mesmo. Para isso, é preferível não desdobrar.

Eu por princípio em grupos de rádio, sou favorável a emissão nacional, mas a ERC deveria obrigar ao seguinte: tens alvará em Porto, Braga, Aveiro, Coimbra, Santarém e Lisboa. Tens de ter um animador por dia útil a fazer emissão a partir do distrito (até pode ser de casa), integrado no painel com colegas de Lisboa ou de outra cidade. Não há motivo para que, por exemplo, nas manhãs não tivesses um animador em Lisboa, outro no Porto e outro em Coimbra. Como se viu com a pandemia, com a divisão de estúdios, as coisas funcionam. Já ouvi o Daniel Fontoua numa Conferência a dizer que nunca compreendeu e continua sem compreender, porque não pode estar sentado na António Luís Gomes a fazer programa, sendo ele de Gaia e tendo o Grupo R/Com estúdios na cidade. Se calhar a Quinta do Bom Pastor dá uma capacidade extra de fazer rádio. percebe o meu ponto?

Sem dúvida, se até compreendo minimamente para um programa de conversa se fosse radialista de um programa de autor ou de playlist estaria sempre a pensar porque raio não poderia fazê-lo nos estúdios da minha cidade pelo menos de vez em quando. E não esquecer que, tal como muitos atores e apresentadores de TV, quem quer seguir rádio é obrigado ou tem mesmo formação para disfarçar o sotaque (e não estou só a falar do do Porto, como é óbvio). Uma das raras excepções é a Laura Ferreira da Cidade FM.
Quanto ao resto, confesso que a certa altura tive o sonho de seguir os rumos da rádio, nem que fosse para a produção, mas como não me via a fazer tanto esforço e ir para Lisboa arriscar tudo numa uma área tão instável por isso desisti rapidamente. Nem todos têm a sorte do Ricardo Lomar que sai da faculdade e passado 3 ou 4 anos é o dono das Manhãs da Nova Era  :D

Se todos discutíssem desta maneira a relação entre os animadores e o público as rádios jovens assim não seriam tão irrelevantes na animação onde a Mega e a Cidade continuam a soar muito a falso, e a Antena 3 não seguiria num rumo tão isolado e perigoso...

A ser verdade o que escreveu  "...E não esquecer que, tal como muitos atores e apresentadores de TV, quem quer seguir rádio é obrigado ou tem mesmo formação para disfarçar o sotaque (e não estou só a falar do do Porto, como é óbvio)..." é muito grave.

Ou seja, a lisboetização do sotaque. Em pleno seculo 21, há um país cujos órgãos de comunicação social centralistas, obrigam a uma formação de pessoas oriundas de outras zonas do país, que não sejam de Lisboa, para adquirir o sotaque"lisboeta".

De facto, um país terceiro mundista.
Já os Trabalhadores do Comercio nos anos 80 quando foram ao Festival da Canção, pela voz do seu lider, Sergio Castro, referia no dia seguinte que a musica não venceu o festival porque o juri considerou que Portugal não podia ser representado lá fora com um sotaque diferente do alfacinha.
È por isso que este país precisa de uma limpeza e de uma regionalização rápida, caso contrario, morre.

Numa época que se defende a igualdade em tudo, Portugal promove a ostracização dos sotaques em favor de um único sotaque, o da capital. Matam as rádios locais para se criar uma unica forma de se fazer rádio, uma unica visão do país, um unico sotaque. Enfim. 
« Última modificação: Junho 24, 2021, 09:12:29 pm por Zeca 2021 »

Memorias da Radio

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Só uma nota técnica: o termo correto a utilizar é pronúncia, e não sotaque. Sotaque é a característica natural de um idioma, é único para cada idioma. Pronúncia engloba as várias maneiras de se expressar dentro nesse idioma. Não é à toa que Rui Reininho falava na Pronúncia do Norte.

Isto sendo dito, sim: confirmo que isso é verdade. E mesmo na zona centro, apesar da pressão ser menor, há algumas variantes que pedem que se elimine (b's/v's, os j's). Isto porque, e é a justificação dada, as pronúncias fora de Lisboa serão mais fechadas enquanto a normalizada que é pedida para rádio é mais aberta e foneticamente clara (vogais abertas, etc). É péssimo, chega a ser em certos casos algum desrespeito às regiões, mas pelo menos é uma explicação que tem lógica e ao ouvido faz sentido... ao contrário de outras coisas que nos são impostas centralmente.

Acho que isto ainda não estava escrito online mas fica a explicação.
« Última modificação: Junho 24, 2021, 10:24:03 pm por Memórias da Rádio »

Julio Carvalho

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Ora bem
Na rádio um locutor ter uma pronúncia que seja entendivel em todo o país.
Há pouco tempo estive nos Açores  e tem lá gente que eu não consegui entender.
Em relação às rádios noto pronúncias nortenhas em vários jornalistas e também na locutora da Cidade Laura  Ferreira, que são perfeitamente entendiveis.
Agora pronúncias cerradas que o país não entende num locutor de uma rádio nacional?
Claro que não não...
Meus caros rádio é voz, que tem que se perceber...
Já num colaborador, que tem uma rubrica curta, tudo bem.

Luis Carvalho

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Meus caros, no Reino Unido existe a "Received Pronunciation", que é norma padrão da fonética inglesa e que, historicamente e que quase sempre tem sido empregue na BBC e noutras rádios nacionais britânicas.

Mesmo na língua de Shakespeare, à semelhança das outras línguas, há dialectos com variações fonéticas. Contudo, a regra tem sido a de utilizar uma pronúncia padrão que é inteligível por todos os britânicos.

Voltando a Portugal, se alguém tem dúvida que até a malta de Lisboa tem uma pronúncia própria que não é exactamente a pronúncia normativa de Coimbra, notem que pelas ruas da capital se ouve dizer que o número "treuze" e não o "treze" dá azar. E há quem coma pão com "chóriço".

Tendo em conta que as rádios nacionais ou quase nacionais são ouvidas em todo o país, não obstante a variedade dialectos de Norte a Sul do país, é perfeitamente compreensível que existam indicações a respeito da pronúncia padrão das palavras. O que não significa que um locutor deva ser criticado porque não distingue bem os "v's" dos "b"'s, o chamado betacismo, característica das pronúncias do Norte do país.

Já nas rádios locais, creio que é perfeitamente admissível ouvir falar "achim" numa rádio beirã, "má que jête?" numa rádio algarvia e que vai haver "tchuba" numa estação transmontana. Como se diz cá no Alentejo, cada um tem a sua manêra de falari e a gente na deixa de ter orgulho na pronúncia.
Cumprimentos,
Luís Carvalho

Administrador do "Fórum da Rádio"

Memorias da Radio

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E também por isso uma local é uma local e uma nacional é uma nacional. Alcances diferentes, lógicas de proximidade específicas também, por aí fora.

Ao caso do Reino Unido que o Luís Carvalho mencionou apenas acrescento que, aos interessados que queiram perceber essa tendência e essa lógica lá, que ouçam algumas locuções de continuidade da BBC One nas suas várias nações (a standard, depois Wales, Scotland e Northern Ireland). A utilização de fonética bate pela mesma lógica que se usa em Portugal e até em zonas que são amplamente conhecidas por serem difíceis de pronúncia (como a Escócia) existe uma uniformização apenas com o levíssimo traço regional identitário, que só salta verdadeiramente à antena em pronunciações locais. E cada locutor, tal como cá, retém a sua normalização nestes exatos termos. E faz todo o sentido.

Em Espanha isso também acontece com uma normalização a Madrid que acontece na quase totalidade de Espanha, exceto na Galiza e em Barcelona, emissões locais apenas, que apresentam uma expressão do castelhano mais suavizada, falemos nós de rádio ou de televisão, seja de que projeto for.

Também em acrescento à pronuncia lisboeta que o Luís Carvalho mencionou e bem, além do treuze e do chóriço, começa-se a assistir a certo arrojar dos erres que ganha o seu expoente em Setúbal, uma certa fala globalmente fechada, sem grande colorido nem grandes sibilantes (fala-se mais com as bochechas que com os dentes por exemplo)... Isto falando do alfacinha natural, geracional, de Lisboa mesmo.

A Mega Hits nesse aspeto não tem problemas, está tudo muito standarizado. E bem, porque o grupo R/Com neste aspeto não brinca em serviço - é com rigor, a regra e esquadro, e com qualidade. Não é um grupo que se fez assim, como a MCR ao longo dos anos. Sempre foi assim desde que me lembro, a honrar o legado histórico. Há um rigor na comunicação (transparente para o ouvinte) que só compara bem com as principais estações internacionais, porque muita estação portuguesa está abaixo disso. Portanto... fossem todas essas, as questões.
« Última modificação: Junho 25, 2021, 01:06:35 am por Memórias da Rádio »

radiokilledtheMTVstar

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Ao caso do Reino Unido que o Luís Carvalho mencionou apenas acrescento que, aos interessados que queiram perceber essa tendência e essa lógica lá, que ouçam algumas locuções de continuidade da BBC One nas suas várias nações (a standard, depois Wales, Scotland e Northern Ireland). A utilização de fonética bate pela mesma lógica que se usa em Portugal e até em zonas que são amplamente conhecidas por serem difíceis de pronúncia (como a Escócia) existe uma uniformização apenas com o levíssimo traço regional identitário, que só salta verdadeiramente à antena em pronunciações locais. E cada locutor, tal como cá, retém a sua normalização nestes exatos termos. E faz todo o sentido.

Em Espanha isso também acontece com uma normalização a Madrid que acontece na quase totalidade de Espanha, exceto na Galiza e em Barcelona, emissões locais apenas, que apresentam uma expressão do castelhano mais suavizada, falemos nós de rádio ou de televisão, seja de que projeto for.

Também em acrescento à pronuncia lisboeta que o Luís Carvalho mencionou e bem, além do treuze e do chóriço, começa-se a assistir a certo arrojar dos erres que ganha o seu expoente em Setúbal, uma certa fala globalmente fechada, sem grande colorido nem grandes sibilantes (fala-se mais com as bochechas que com os dentes por exemplo)... Isto falando do alfacinha natural, geracional, de Lisboa mesmo.

A Mega Hits nesse aspeto não tem problemas, está tudo muito standarizado. E bem, porque o grupo R/Com neste aspeto não brinca em serviço - é com rigor, a regra e esquadro, e com qualidade. Não é um grupo que se fez assim, como a MCR ao longo dos anos. Sempre foi assim desde que me lembro, a honrar o legado histórico. Há um rigor na comunicação (transparente para o ouvinte) que só compara bem com as principais estações internacionais, porque muita estação portuguesa está abaixo disso. Portanto... fossem todas essas, as questões.

Tu e o Luís têm razão quanto à BBC, mas se compararmos o Phil Taggart da Radio 1 com um Luís Oliveira ou uma Joana Azevedo por exemplo nota-se muito mais a pronúncia dele ainda assim. Nota-se bem que estes dois fizeram um esforço para não soarem à pronúncia - obrigado pela correcção - do Porto. E o triste é que muita gente faz isto por medo de perder oportunidades profissionais... por isso tem de se dar os parabéns à Cidade FM por nunca terem colocado problemas à Laura Ferreira, problemas esses que infelizmente se calhar já vai ter se algum dia pensar em dar o salto para uma rádio líder como a Comercial...
Voltando à Mega, claro que é tudo standardizado. Tirando o Diogo Pires e mais um ou dois vêm todos da Católica de Lisboa, o que não é para todos os bolsos e por isso é quase impossível captar alguém de fora de Lisboa por aí.
« Última modificação: Junho 25, 2021, 07:36:42 pm por radiokilledtheMTVstar »

Zeca 2021

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Ora bem
Na rádio um locutor ter uma pronúncia que seja entendivel em todo o país.
Há pouco tempo estive nos Açores  e tem lá gente que eu não consegui entender.
Em relação às rádios noto pronúncias nortenhas em vários jornalistas e também na locutora da Cidade Laura  Ferreira, que são perfeitamente entendiveis.
Agora pronúncias cerradas que o país não entende num locutor de uma rádio nacional?
Claro que não não...
Meus caros rádio é voz, que tem que se perceber...
Já num colaborador, que tem uma rubrica curta, tudo bem.

"...Noto pronuncias nortenhas em vários jornalistas...que são perfeitamente entendíveis"
Em 2021 ler isto num forum rádio é preocupante.

Ou seja, há pronuncias nortenhas que não são entendíveis, pelo que vejo.
Este complexo de superioridade de alguns com fonética acentuada sotaque lisboeta, que pensam que quem não possuir a fonetica idêntica anda norma da língua portuguesa é de facto muito triste.
Que mentalidade é esta?
Muito provavelmente nunca tiveram linguística e por isso não fazem a mínima ideia do que dizem.

A este propósito, Vital Moreira num artigo de opinião no Jornal O Publico escrevia sobre a confusão entre o português e o lisbotês, ligando este tema ao mundo da rádio e tv. Há quem fale o lisbotês e pense que fala português e ainda por cima possuem o complexo de se achar bem falante, quando a pronuncia das palavras é apenas uma parte da equação. Se calhar, há muitos que falam lisbotês e não conseguem conjugar o presente do conjuntivo do verbo ser. 

A ignorância alastra no meio radio e depois de ler estas barbaridades, mais concretizo esta ideia.
Escreve o Prof da Universidade de Coimbra "
..."Não é preciso ser especialista para verificar as evidentes particularidades do falar alfacinha dominante. Por exemplo, "piscina" diz-se "pichina", "disciplina" diz-se "dichiplina". E a mesma anomalia de pronúncia se verifica geralmente em todos os grupos "sce" ou "sci": "crecher" em vez de "crescer", "seichentos" em vez de "seiscentos", e assim por diante.O mesmo sucede quando uma palavra terminada em "s" é seguida de outra começada por "si" ou "se". Por exemplo, a expressão "os sintomas" sai algo parecido com "uchintomas", "dois sistemas" como "doichistemas". Ainda na mesma linha a própria pronúncia "de Lisboa" soa tipicamente a "L'jboa".Outra divergência notória tem a ver com a pronúncia dos conjuntos "-elho" ou" -enho", que soam cada vez mais como "-ânho" ou "-âlho", como ocorre por exemplo em "coelho", "joelho", "velho", frequentemente ditos como "coâlho", "joâlho" e "vâlho". Uma outra tendência cada vez mais vulgar é a de comer os sons, sobretudo a sílaba final, que fica reduzida a uma consoante aspirada. Por exemplo: "pov'" ou "continent'", em vez de "povo" e de "continente". Mas essa fonofagia não se limita às sílabas finais. Se se atentar na pronúncia da palavra "Portugal", ela soa muitas vezes como algo parecido com "P'rt'gâl".O que é mais grave é que esta forma de falar lisboeta não se limita às classes populares, antes é compartilhada crescentemente por gente letrada e pela generalidade do mundo da comunicação audiovisual, estando por isso a expandir-se, sob a poderosa influência da rádio e da televisão.Penso que não se trata de um desenvolvimento linguístico digno de aplauso. Este falar português, cada vez mais cheio de "chês" e de "jês", é francamente desagradável ao ouvido, afasta cada vez mais a pronúncia em relação à grafia das palavras e torna o português europeu uma língua de sonoridade exótica, cada vez mais incompreensível já não somente para os espanhóis (apesar da facilidade com que nós os entendemos a eles), mas inclusive para os brasileiros, cujo português mantém a pronúncia bem aberta das vogais e uma rigorosa separação de todas as sílabas das palavras..."

Espero que o caro R4 aprenda o que é o Lisbotês que misturado com tons africanos, é quase impercetível.
Escutar rádios como a Cidade e megas, o lisbotês transnborda por todo o lado mas há quem ache que isso é o padrão. Santa Paciencia.
Como diz Vita Moreira, "...Por vezes conto esta estória aos meus alunos de mestrado brasileiros, quando se me queixam de que nos primeiros tempos da sua estada em Portugal têm grandes dificuldades em perceber os portugueses, justamente pelo modo como o português é falado entre nós, especialmente no "dialecto" lisboetês corrente nas estações de televisão..."
Para os interessados e com complexos linguísticos, aqui fica o artigo. https://www.publico.pt/2000/01/04/jornal/cronica-do-falar-lisboetes-138178

« Última modificação: Junho 25, 2021, 07:28:54 pm por Zeca 2021 »

Zeca 2021

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Meus caros, no Reino Unido existe a "Received Pronunciation", que é norma padrão da fonética inglesa e que, historicamente e que quase sempre tem sido empregue na BBC e noutras rádios nacionais britânicas.

Mesmo na língua de Shakespeare, à semelhança das outras línguas, há dialectos com variações fonéticas. Contudo, a regra tem sido a de utilizar uma pronúncia padrão que é inteligível por todos os britânicos.

Voltando a Portugal, se alguém tem dúvida que até a malta de Lisboa tem uma pronúncia própria que não é exactamente a pronúncia normativa de Coimbra, notem que pelas ruas da capital se ouve dizer que o número "treuze" e não o "treze" dá azar. E há quem coma pão com "chóriço".

Tendo em conta que as rádios nacionais ou quase nacionais são ouvidas em todo o país, não obstante a variedade dialectos de Norte a Sul do país, é perfeitamente compreensível que existam indicações a respeito da pronúncia padrão das palavras. O que não significa que um locutor deva ser criticado porque não distingue bem os "v's" dos "b"'s, o chamado betacismo, característica das pronúncias do Norte do país.

Já nas rádios locais, creio que é perfeitamente admissível ouvir falar "achim" numa rádio beirã, "má que jête?" numa rádio algarvia e que vai haver "tchuba" numa estação transmontana. Como se diz cá no Alentejo, cada um tem a sua manêra de falari e a gente na deixa de ter orgulho na pronúncia.

A norma de uma língua nativa é globalmente aceite como sendo a norma fixada pela primeira universidade criada nesse mesmo país. Em Italia, o italiano norma é aquele que foi ensinado na Universidade de Bolonha e desse modo, o italiano da província de Emilia- Romanha é considerado o italiano mais puro, que hoje em dia influenciado pelo italiano de Roma, sofre de alguma massificação.

Em Espanha, acontece o mesmo, sendo o castelhano de Salamanca e depois de Valadolid como os berços do castelhano e assim nasceu o roteiro da lingua castelhana entre Ávila, Salamanca, Alcalá de Henares ou os mosteiros de San Millán de la Cogolla. È neste périplo que o castelhano se fala melhor. Quem pensa que é em Madrid, enfim, pouco ou nada conhece da história do acstelhano. O que acontece ao castelhano é precisamente o que acontece ao italiano, onde a capital começa a criar fonéticas que vão derivando a linga materna criando a ideia que é na Capital que se fala o correcto castelhano. Mas como diz um dos maiores estudiosos do castelhano "Todas las variedades de una lengua son medios igualmente aptos para desempenhar las diferentes funciones del lenguaje". Que dónde se habla el mejor español? Pues en todas partes y en ninguna.

Em Inglaterra, a norma nasceu em Oxford e é mais que aceite que é por terras do condado de Oxfordshire a fonética se aproxima do padrão.
Em Portugal, como é obvio, é em Coimbra onde o português possui menos sotaque uma vez que foi ali, na Universidade de Coimbra que o português se começou a ensinar, a aprender e a estudar, cujos eruditos definiram o português norma e assim se mantém nos dias de hoje. Quem acha que a derivação que existe em Lisboa da língua portuguesa, de facto, não tem a mínima noção que Lisboa é a zona do país mais influenciada pela colonização. Em Lisboa, fala-se o lisbotês, como ensina o Prof da Universidade de Coimbra, Vital Moreira, com a vantagem face a Coimbra uma vez que influencia um país devido ao centralismo dos meios de comunicação social.
« Última modificação: Junho 25, 2021, 07:52:39 pm por Zeca 2021 »

Memorias da Radio

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O Zeca está outra vez a fazer leitura diagonal. Ora leia lá a minha passagem de novo: eu disse que a normalização que existe em rádio e televisão ocorre relativamente a Madrid, em linha com o que acontece noutros exemplos que me dei ao trabalho de escrever. Se é melhor ou pior espanhol é algo que não tenho, ainda, conhecimentos para dizer e pelos vistos nem chegarei a ter se todas são tão igualmente válidas como se afirma, mas de qualquer forma é a norma no meio - e é no meio que estamos a falar, ou não fosse este o tópico da Mega Hits.

Quanto a pronúncias nortenhas não entendíveis: ora experimente
lá levar uma pessoa de Leiria a Viana do Castelo ou a Miranda do Douro e logo vê se são ou não são entendíveis. Asseguro-lhe que o falante terá dificuldades com algumas pessoas destas regiões, sim, porque isto varia bastante e não, não é linear. É normalizado, que é diferente.

No demais, nada a acrescentar e excelente informação. E nisto estou de consciência totalmente tranquila uma vez que a minha normalização foi feita a Coimbra, não a Lisboa.


Luis Carvalho

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Re: Pronúncias da língua portuguesa e a fonética empregue nas rádios
« Responder #10 em: Junho 25, 2021, 11:59:37 pm »
Nota de moderação:
O presente tópico foi separado do tópico "Mega Hits" por se tratar de um assunto fundamental para qualquer rádio e que merece ser tratado à parte.
Cumprimentos,
Luís Carvalho

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nelsonsoares

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Re: Pronúncias da língua portuguesa e a fonética empregue nas rádios
« Responder #11 em: Junho 26, 2021, 09:33:50 pm »
Acerca deste tema, posso falar da minha experiência pessoal.
Eu quando comecei a fazer relatos de futebol na Rádio Alvor do Algarve, com os meus 17 anos, o meu diretor de desporto, começou por iniciativa dele, a emendar e a trabalhar a minha pronúncia, para não se notar tanto o algarvio.
Na minha opinião, sou contra trabalhar a pronúncia, desde que seja percetível ao público geral.
Mas na altura, sabia perfeitamente que se quisesse sonhar com alguns voos mais altos, que tinha obrigatoriamente que trabalhar a pronúncia.
Este é o país que temos, e não há muito a fazer.
A mim não me faz confusão ouvir alguém com pronúncia dos Açores, Madeira, Trás-os-Montes, Minho, PALOP, etc, desde que seja percetível ao público geral.
O problema, é que a maioria das direções das rádios nacionais, são contra a existência de pronúncia regional, independentemente de ser percetível ao público geral ou não.

Zeca 2021

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Re: Pronúncias da língua portuguesa e a fonética empregue nas rádios
« Responder #12 em: Junho 28, 2021, 08:36:32 pm »
Acerca deste tema, posso falar da minha experiência pessoal.
Eu quando comecei a fazer relatos de futebol na Rádio Alvor do Algarve, com os meus 17 anos, o meu diretor de desporto, começou por iniciativa dele, a emendar e a trabalhar a minha pronúncia, para não se notar tanto o algarvio.
Na minha opinião, sou contra trabalhar a pronúncia, desde que seja percetível ao público geral.
Mas na altura, sabia perfeitamente que se quisesse sonhar com alguns voos mais altos, que tinha obrigatoriamente que trabalhar a pronúncia.
Este é o país que temos, e não há muito a fazer.
A mim não me faz confusão ouvir alguém com pronúncia dos Açores, Madeira, Trás-os-Montes, Minho, PALOP, etc, desde que seja percetível ao público geral.
O problema, é que a maioria das direções das rádios nacionais, são contra a existência de pronúncia regional, independentemente de ser percetível ao público geral ou não.

Ou seja, a pronuncia/sotaque da região de Lisboa é aceite mas o sotaque/pronuncia de outras regiões não é aceite. Dito de outro modo, aquele sotaque alfacinha carregado, bem audível nas rádios Megas/Cidades/SBSR e até na Observador é aceite e considerado correto. Há miúdos nas Megas/Cidades que conseguem a proeza de ter o sotaque lisboeta carregado com o pronuncia africana. Pasme-se.
Coisas que brotam de um centralismo bacoco.

Julio Carvalho

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Re: Pronúncias da língua portuguesa e a fonética empregue nas rádios
« Responder #13 em: Junho 28, 2021, 09:15:10 pm »
O administrador Luís Carvalho já aqui disse como é a pronúncia lisboeta, e é verdade, digo eu que vivo na capital, conheço  essa pronúncia muito comum nos bairros típicos de Lisboa, já vivi no Alto de Pina e sei como é.

Portanto essa pronúncia que fala nas tais rádios deve ser de outra localidade qualquer, mas prometo estar atento.
Mas também se estiver atento verá que a miúda das manhãs da Cidade, Laura Ferreira tem a pronúncia do norte.
E grande parte dos locutores dessas rádios nem de Lisboa são.
« Última modificação: Junho 28, 2021, 09:17:05 pm por R4 »