A deliberação da Antena Sul apenas representa aquilo que já acontecia, sem estar "preto no branco". Agora está.
Aí permite-me discordar: a começar pela própria rede RECORD, onde a questão do pluralismo se levanta em, pelo menos, em todos os emissores da rede RECORD, onde, francamente, não vejo grande distinção face ao caso da Antena Sul, que repito, me parece ter sofrido do efeito Benfica, doutro modo, estou convicto que passaria.
Fora isso, o único caso mais ao menos semelhante de que me recordo foi a questão dos 97.5 Portel com a Canção Nova, que a meu ver até saíram a perder, porquanto é bem mais "religiosa" a Maria do que a Canção Nova, basta experimentarem ouvir, por exemplo, a hora das 18h, como já fiz, onde só o Desporto dura quase 30 minutos, cobrindo clubes do Minho ao Algarve, muito para lá do alcance máximo do emissor, portanto, já em condições degradadas, que vai do Sul de Gaia/Espinho à Península de Setúbal. E aí, honestamente, acho que terão existido outras razões, porquanto, acabaram por autorizar uma temporária "Esperança", que não era menos religiosa.
De resto, podemos nos lembrar do caso da Fóia com a MegaHits, mas também das perdas de emissores para a RDS e, embora considere menos grave, mesmo para a própria Observador, pensando particularmente no caso da Emissora das Beiras.
Dito isto, mais vale tarde do que nunca, e é bom que a ERC aguente a pressão.
Ouvi a entrevista atentamente, e retirei algumas notas, que me merecem comentário:
1. O contrato de associação (nome dos contratos do MEC com as Escolas Privadas, a referência correta seria a Associação de Serviço de Programas) da BenficaFM é comparável ao da VodafoneFM, que deu origem à BatidaFM: é falso, a Vodafone só emprestava a marca, todos os meios de produção eram responsabilidade da própria Bauer. Além disso, diferentemente do que acontece com alguém que não seja adepto do SLB, não é de querer que um cliente da MEO ou da NOS tivesse razões para rejeitar ouvir uma rádio designada de Vodafone. A marca era apenas patrocinadora, obviamente não tinha qualquer influência editorial (pelo menos direta e relevante) na estação, mesmo em termos de publicidade, não me recordo de ouvir sequer.
2. Rádio de Lisboa: aqui, tenho de ser um pouco "Zeca", mas é um tanto ou nada inadmissível, para não dizer mesmo insultuoso, para os próprios benfiquistas da região Centro, dizer que Cantanhede é grande Porto. Além disso, revela uma tremenda falta de conhecimento do processo e do terreno. Primeiramente, porque os 103.0 de Cantanhede não chegam sequer a Aveiro, por conta da força da Antena 3 de Braga, no Sameiro (será que se autorizarem, é a guerra seguinte que vão travar?), de caminho, ainda indica que 94.3 são de Vila Nova de Gaia (de caminho, ainda vão querer por o emissor no Monte da Virgem).

3. Questão da Audiência: o ponto do aumento do número de ouvintes face à BatidaFM é, efetivamente, o mais defensável. Aí, não tenho grandes dúvidas de que o SLB tem razão, mas, em abono da verdade, qual é a quota parte de culpa da Bauer nisso? É que deixar a Batida anos a fio sem locução, praticamente desaparecida do mapa, também não ajuda nada. Em todo o caso, com o projeto que têm, até acredito que seria capaz de andar por valores da Smooth no Bareme.
4. Avaliação do pluralismo ex-ante: exatamente, é essa a função do Regulador. Se calhar falou em demasiados casos, sendo o concelho de Sintra, o segundo maior do país, o exemplo mais clamoroso desse colapso da função regulatória, com 91.2 e 107.7 com frequências que, na prática são temáticas religiosas. Um pormenor relevante é que a ser autorizada a conversão dos 94.3 Maia, ficaremos com o mesmo problema, porquanto 100.8 são igualmente um mercado de nicho.
5. Chamar o Parlamento à coação, é mesmo baixo nível. Estas coisas decidem-se na Justiça, pese embora aí, também se tem de dizer a verdade, o projeto não dure para ver a luz do dia, a menos que o SLB esteja disposto a lá enterrar muito dinheiro. Depois, vêm falar em mão invisível, levantando suspeitas... quando são eles próprios essa mão, mas mais publicitada, porque o que o SLB está a fazer, e bem, é Lobby.
6. Alude o Senhor Vice-Presidente que outros estão a querer ir atrás: sim, já ouvi uns zururus que o Porto estará com o dossier já relativamente avançado. A questão é, se os clubes começam a secar frequências como se não houvesse amanhã... Imaginando que o FCP constitui uma rede simétrica à do SLB, são mais 6 frequências a secar. Mesmo que sejam as três da Metropolitana e uma Lezíria, na região centro são mais duas locais a se finarem. E aí já não há muitas CasseteFM. Se o Sporting afina pelo mesmo diapasão, o Braga e o Guimarães, obviamente a uma escala mais regional... ficamos com o caldo entornado. A ERC tem de precaver não só a situação do SLB mas os movimentos similares dos potenciais players do setor.
Conclusão minha: aqui chegados, não excluo que rádios de clubes até possam ser relativamente interessantes como forma de poder ajudar a revitalizar o mercado de rádios locais. Por exemplo, se cada clube da primeira liga tivesse uma parceira com uma rádio local, dando-lhe nome, e comprando horas de programação, poderia ser um serviço muito interessante. Posto isto, se o pedido da Benfica fosse restrito a Amadora e Moita, por mim, até era capaz de deixar passar. Envolvendo Bombarral, Cantanhede, Maia e, com elevado grau de certeza Vale de Cambra, localidades onde a marca Benfica não tem qualquer relevância social, além da esfera da paixão irracional que o futebol despoleta, é que jamais em tempo algum.